Fuga de traficantes por trilhas expõe insegurança da Floresta da Tijuca

Fonte: Ana Lucia Azevedo, O Globo / Extra

Famosa por sua beleza de cartão-postal, a Floresta da Tijuca significa bem mais que turismo e lazer para o Rio. É questão de segurança pública. A recente fuga de bandidos da Rocinha pelo Horto, por uma trilha que chega à Vista Chinesa, evidenciou o que frequentadores sabem há anos e boa parte dos cariocas não vê: a floresta é usada por criminosos como caminho para várias comunidades. Ponto central do Rio, ela liga todas as regiões da cidade. A rota seguida por uma quadrilha chamou a atenção pela facilidade com que foi percorrida — o bando alcançou as zonas Norte e Sul. Há lugares na mata que se tornaram territórios proibidos, devido ao medo imposto por facções.

— Quando se diz que os bandidos fugiram pelo mato, soa para muita gente como se tivessem entrado num buraco negro. Não é verdade. Os caminhos são batidos. Os bandidos não inventaram nada, usam velhos trajetos. A floresta é o jardim do Rio, está dentro da cidade, bem no meio dela. Não existe qualquer outra área mais central do que a Floresta da Tijuca. Não se trata de uma Amazônia, mas de uma mata muito bem conhecida e que, por estar cercada por comunidades dominadas pelo tráfico, deveria ter policiamento ostensivo, e não apenas pontual — afirma Horácio Ragucci, um dos maiores conhecedores da região e guia do Centro Excursionista Brasileiro (CEB).

Há duas áreas consideradas extremamente perigosas dentro do Parque Nacional da Tijuca (PNT), que, com seus 39,6 quilômetros quadrados, abrange a maior parte da floresta. Elas ficam nas zonas Norte e Oeste.

A primeira, explica Ragucci, fica no trecho Covanca-Pretos Forros, entre Jacarepaguá e Grajaú. A outra é a região conhecida como Perdidos do Andaraí, que inclui a descida do Alto da Boa Vista pela mata até o Grajaú. Ela dá acesso a comunidades ligadas ao Complexo do Lins.

— Nessas áreas, é quase certo encontrar homens armados em qualquer dia ou horário. São matas em que os trilheiros e a maioria dos frequentadores não pisam. Ninguém vai ali, a não ser bandidos e incautos. Uma perda imensa para a cidade — observa Ragucci, uma das poucas pessoas que pode se orgulhar de já ter percorrido praticamente todas as trilhas da floresta.

Fundamental para a segurança

O mais urbano dos cariocas pode nunca pôr os pés na Floresta da Tijuca, mas o que acontece lá impacta a sua segurança. O chefe do Parque Nacional da Tijuca, Ernesto Viveiros de Castro, destaca que o policiamento das trilhas da floresta não é necessário apenas para os frequentadores e visitantes, mas para toda a cidade. Policiar só o asfalto não basta.

— Impedir que bandidos invadam a floresta é importante para a segurança do município, para todos que frequentam ou não o parque. A área é central, conecta todo o Rio. Se os bandidos não puderem transitar por ela, terão mais dificuldade para se deslocar, se esconder e ocultar armas — diz Viveiros de Castro.

Beleza não falta às áreas que a criminalidade transformou em territórios proibidos. Na Zona Norte, ipês às dezenas pintam de amarelo o verde das matas das encostas dos morros da Pedra do Conde, da Pedra da Caixa, dos Perdidos do Andaraí e do Felizardo, uma região contígua aos bairros do Grajaú, do Méier, da Usina e do Andaraí. Vista de cima, toda a exuberância da primavera na Mata Atlântica se revela. Debaixo da copa da árvores, é território de bandidos de comunidades como a Divinéia, que se liga com favelas do Complexo do Lins e do Andaraí.

— Esse trecho é perigosíssimo. Até bem pouco tempo, uma cruz com o símbolo do Comando Vermelho marcava uma das trilhas. O Morro do Felizardo, um dos mais críticos, oferece um panorama espetacular, pena que não possamos mais ir até lá — lamenta Ragucci.

O guia e voluntário da Trilha Transcarioca Jeremias Freitas é outro que não vai mais à região do Perdidos do Andaraí.

— Esse é um dos lugares em que não caminho mais. Não há segurança alguma, e o risco de encontrar com bandidos é enorme — afirma Freitas, que também conhece bem os caminhos da floresta e anda por lá todas as semanas.

Na Covanca-Pretos Forros, a situação não é melhor. A Trilha Transcarioca, por exemplo, foi desviada dessa mata, onde é mais provável encontrar homens armados do que não vê-los por lá. Nessa região, a floresta se fechou em vários pontos porque pouca gente se aventura em seus caminhos. A área compreende o entorno da Avenida Menezes-Cortes (Grajaú-Jacarepaguá) e da Estrada do Catonho.

Ficam lá a Floresta dos Pretos Forros, os vales do Olho D’Água e o dos Três Rios. A área de risco inclui ainda parte da Floresta de Santa Inês, uma das partes belas do parque. É lá que fica a Represa dos Ciganos, e assaltos não são raros, principalmente no verão.

— Ali é muito ermo e extremamente perigoso. Um dos pontos chaves para atrair bandidos é o Morro do Inácio Dias, num dos extremos da floresta, junto à Covanca, em Jacarepaguá. O morro está desmatado, mas o acesso pode ser feito pela floresta. A vista de 360 graus da cidade é fantástica. É estratégica para bandidos, que podem controlar acessos a comunidades vizinhas, em bairros como Jacaré, Cascadura, Praça Seca e Méier — alerta Ragucci.

Rota bem conhecida

Uma trilha bem conhecida por frequentadores da floresta, mas que só ganhou visibilidade nas últimas semanas, devido à fuga do bando de Rogério Avelino dos Santos, o Rogério 157, é a que liga o alto da Rocinha à Vista Chinesa e que oferece vias pela mata para o Horto, o Alto da Boa Vista, o Sumaré e o Complexo do Lins. Ela começa no Morro do Laboriaux, na parte alta da comunidade. Recentemente, esse trecho recebeu melhorias do PNT para que servir de atrativo e de potencial fonte de renda para moradores da região, já que a trilha passa por lugares de paisagens espetaculares, com vocação para o turismo.

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Do Laboriaux à trilha — considerada relativamente fácil —, chega-se ao Ponto das Andorinhas. O caminho leva até o Morro do Cochrane, já na Gávea. A trilha desce um pouco e depois serpenteia pelas encostas da Floresta da Gávea Pequena. Ela termina em outra trilha, bem menor e até então frequentada por trilheiros, turistas e corredores. Essa liga a Vista Chinesa à Mesa do Imperador.

Até o Horto, o caminho é fácil. Basta descer a trilha sinalizada em direção à Vista Chinesa. O trajeto termina numa escada. Daí, são menos de cem metros até a trilha do Solar da Imperatriz (igualmente sinalizada), frequentada por mountain bikers e corredores. Essa trilha de cerca de dois quilômetros chega ao Solar, que pertence à Fundação Jardim Botânico. Dali, são poucos metros até o asfalto da Rua Pacheco Leão.

Necessidade de policiais treinados

Para alcançar a Zona Norte pelo mesmo caminho do Cochrane, é só pegar a trilha Vista-Mesa do Imperador no sentido desta última. O caminho termina numa pracinha quase em frente ao ponto turístico, onde, nos fins de semana, acontecem piqueniques. Basta atravessar a estrada da Vista Chinesa e subir pela escadaria da Mesa, que termina na trilha do Morro do Queimado. Essa dá acesso a uma das paisagens mais belas da cidade e também à Estrada do Redentor. Descendo a estrada, a partir da trilha, chega-se ao Alto da Boa Vista e, pelo mato, ao Andaraí e, daí, à Usina ou ao Lins. Se a opção for subir, chega-se ao Sumaré, por onde é possível alcançar o Rio Comprido. Ou às Paineiras, via Cosme Velho, ou Santa Teresa, até o Centro. Tudo interligado.

— A fuga pela mata não causa surpresa. Era o esperado que fizessem. De certa forma, esse caso evidenciou uma questão antiga da cidade, que não recebia a devida atenção. A floresta necessita de policiamento com homens treinados e equipados para operações em trilhas. Os policiais precisam conhecer bem a área, porque os bandidos se sentem em casa. É inadmissível que um lugar tão fundamental para o Rio seja invadido. Ninguém pode se conformar com uma coisa dessas, que o crime domine um patrimônio da sociedade. É uma perda para a cidade em turismo, segurança e liberdade — afirma o coronel reformado da Polícia Militar Eduardo de Oliveira, integrante da Câmara Técnica de Segurança do Mosaico Carioca e coordenador de segurança da Trilha Transcarioca.

Ele destaca que, para obter segurança no asfalto, é preciso policiar as trilhas ostensivamente, e não apenas durante operações pontuais.

— Policiar só o asfalto não adianta porque os bandidos vão para a mata. O Rio precisa de uma unidade de policiamento voltada para isso, com amplo conhecimento sobre a Floresta da Tijuca — frisa Oliveira.

Tanto ele quanto os frequentadores e o chefe do PNT estão convencidos de que a implantação no parque de uma Unidade de Policiamento Ambiental (Upam), especializada em ações na mata, é um passo fundamental para aumentar a segurança.

— É essencial ter uma unidade de polícia especializada, capaz de identificar áreas mais vulneráveis e fazer incursões rápidas. A floresta está inserida bem no meio da cidade, precisa ser vista desta forma. Não é apenas turística, é de todos. Quando ela está vulnerável, toda a cidade sofre — diz Viveiros de Castro.

Uma casa pertencente ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea), na Estrada da Vista Chinesa, é considerada o lugar ideal para abrigar uma Upam devido à facilidade de acesso a toda a floresta e a suas trilhas. Segundo Viveiros de Castro, o Inea mostrou disposição em ceder o imóvel para instalar a unidade.

PM apoia instalação de unidade especial

Outra medida é melhorar a comunicação entre os cinco batalhões que cobrem a área. O diretor da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio de Janeiro, Raphael Pazos, concorda. A comissão promoveu uma reunião com entidades ligadas à floresta, a polícia e o ICMBio.

— Até hoje não temos uma polícia própria para essa região tão fundamental. Hoje, não há mais dúvida de que isso é uma urgência. Tanto para combater a grave crise de segurança quanto para que possamos integrar áreas. Se ficassem livres de bandidos, elas poderiam render emprego e renda por meio do turismo, por exemplo, além de servir de lazer para os cariocas. A segurança também ajuda a conter a degradação ambiental. A sociedade precisa acordar e se mobilizar — salienta Pazos.

Segundo ele, a PM se mostrou disposta a instalar uma Upam na floresta. O chefe do Comando de Policiamento Ambiental (Cepam), coronel Mário Marcio Fernades, diz que a corporação considera viável a implantação de uma unidade de policiamento dentro do Parque Nacional da Tijuca:

— Temos hoje oito Upams no estado. Nossa principal função é coibir crimes ambientais, como caça e desmatamento. Mas nada impede que possamos fazer uma parceria com o Inea e colaborar com os demais batalhões para a segurança da floresta. Temos tido reuniões com entidades representativas da sociedade, o ICMBio e a prefeitura para discutir isso, e tem havido avanços. Infelizmente, as reuniões foram interrompidas com a crise na Rocinha, mas esperamos poder retomar as conversas em breve.

Fernandes lembra que problemas de ordenação urbana ajudam a agravar a insegurança na área verde:

— A floresta tem sofrido com o crescimento urbano desordenado. A segurança passa também pelo controle das comunidades que invadem a mata.

O coronel diz que o Cepam tem feito incursões regulares em trilhas mais visadas para assaltos. Entre elas, está a do Parque Lage-Corcovado, que, no início do ano, teve casos de violência quase diários. Também têm sido alvo de operações as trilhas da Pedra da Gávea, da Cova da Onça e do Excelsior. Essas duas últimas servem de comunicação com as comunidades do Borel e dos Macacos.

— Todas essas trilhas são vulneráveis e tiveram assaltos. No Corcovado e na Cova da Onça, eu evito caminhar — frisa Freitas, que ajudou a instalar as placas de alerta para risco de assalto na trilha do Parque Lage.

Durante a semana passada, a PM manteve viaturas na Vista Chinesa, na Mesa do Imperador e nos acessos ao Horto. Aos poucos, visitantes e frequentadores começam a voltar.

Fonte: Ana Lucia Azevedo, O Globo / Extra

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