Trilha sobre a ferrovia do Trigo no RS - De Guaporé a Muçum

      Já tinha muito ouvido falar da trilha pela ferrovia do trigo entre Guaporé e Muçum, em especial pelo Viaduto 13, o mais alto das américas (ferroviário). Desta vez consegui me organizar e fiz o caminho em três dias, agora entre 04 e 06 de outubro de 2018, e posso já concluir este relato com a expressão "espetacular"! O Caminho, é árduo, é verdade. Li alguns relatos de outros caminhantes que falam em uma caminhada de dificuldade média, mas confesso que para mim a caminhada foi bem mais que isto. São 50 km caminhando por um piso bastante irregular, todo de pedra britada e  por dormentes tão irregulares tanto quanto as pedras, fazendo com que os pés e joelhos  sofram bastante. Mas o caminho tem paisagens ímpares que valem todo o esforço. A natureza é deslubrante e pujante, tanto  fauna como flora. Mata atlântica pura, é moldura para o caminho o tempo todo. Avista-se muitos animais principalmente avifauna nativa do RS. De canários da terra a tucanos de bico verde. Simplesmente fantástico! Avistei um bando de mico pregos, dois graxains do mato, e vi rastros de mão pelada!! Para quem gosta de vida silvestre, o caminho é um prato cheio.

     Não bastasse a exuberância natural, a ferrovia por si só impressiona pela engenharia e pelo desafio que o Exército Brasileiro teve entre as décadas de 1960 e 1970 (o viaduto 13 foi inaugurado em 1979). Sim, este trecho foi praticamente todo construído pelo EB - 1 Batalhão Ferroviário do Exército. As obras realmente são impressionantes, tanto os tuneis como os viadutos. No incício de quase todos os tuneis e viadutos tem o simbolo da engenharia do Exército Brasileiro.  Neste trecho foram 21 viadutos, sendo três vazados, e 16 tuneis. Aliás, vale um comento especial dos viadutos vazados. São obras impressionantes onde os dormentes parecem estar pendurados no ar. Eles não tem murada ou guarda corpo e como não tem nada embaixo dos dormentes, confesso que é bem tenso passar por eles. Felizmente o mais longo é o primeiro, o  viaduto da Mula Preta. Mas para pessoas que sofrem de vertigem, desaconselho a passar, pois é necessário olhar muito para onde se vai pisar e isto pode deixar as pessoas tontas. O problema é que não tem um caminho alternativo, então avalie muito bem esta condição. Se decidir passar, a dica é parar de tempo em tempo ao longo da travessia e olhar para o horizonte para não ficar desorientado. E se vier o trem, não há com que se preocupar, pois a cada 15, 20 metros tem um refúgio para pessoas. Outra dica: não passe em grupos muito grandes ao mesmo tempo, pois estes refúgios comportam no máximo duas pessoas.

     Outro espetáculo a parte são as várias e incontáveis cachoeiras ao longo do caminho, algumas bastante acessíveis aos caminhantes, como por exemplo a garganta do diabo, um buraco que literalmente engole uma grande cachoeira e a faz passar por baixo da ferrovia.

     Falando um pouco sobre a travessia, sei de pessoas que a fizeram em apenas um dia mas para mim é muita loucura. O desgaste é enorme e não se aproveita muito tudo o que o caminho oferece. Eu fiz em três dias, sendo que no primeiro dia eu entrei na ferrovia pouco depois das 12:30h em Guaporé (peguei um onibus de Porto Alegre a Guaporé as 07:40h e  levou 4 horas e meia de viagem). Perto das 17:30 horas, cheguei no refúgio chamado "Casa Recanto da Ferrovia". É um lugar muito bacana e com bons recursos de apoio (banheiro com chuveiro quente, local para acampamento bar e wifi). Só faça contato antes com o dono do local (facebook/casa recanto da ferrovia) pois eu não fiz isso e quando cheguei lá estava fechado. Montei acampamento no mato mesmo, próximo dos trilhos. O único inconveniente foi o trem que passou as 4:30 da manhã e não tive como não me acordar; o barulho é forte.  No segundo dia iniciei a caminhada as 07:30 horas e caminhei com tranquilidade até o viaduto 13. Cheguei lá perto das 12:30 horas. No pé do viaduto tem alguns campings. O que achei mais receptivo foi o camping paraiso do V13 ( o dono é o Sr Jair, uma homem simples mas muito hospitaleiro). Como ele mora no local com sua esposa, é só chegar sem avisar. Cobra R$ 10,00 para campar, tem bar, e até wifi. Só ficou devendo em Chuveiro, mas o camping fica as margens do Arroio Barraca e o lugar é fantástico. Decidi ficar ali o resto do dia e deixei para terminar a trilha para o terceiro dia. Assim pude conhecer melhor a cascata que tem no local e tomar um banho no arroio. No terceiro dia, iniciei a caminhada de novo às 07:30 horas e conclui o trajeto, pontualmente às 12:40 já na rodoviária do município de Muçum ( fica a 800 m dos trilhos). Foi legal porque consegui tomar um onibus de retorno para Porto Alegre que sai diariamente de Muçum à 12:50h. Devo dizer que não fiz correria, portanto, é perfeitamente viável para qualquer pessoa fazer estes trajetos dentro destes tempos com tranquilidade. Foram na verdade cinco horas  de caminhada por dia em média. 

      De prático, para  auxiliar novos cominhantes que queiram fazer esta trilha, gostaria de deixar aqui algumas considerações: Como primeira vez, opte por fazer o trecho de Guaporé para Muçum. Assim você sai de 480 metros de altitude e vai para 48 metros acima do nivel do mar, tornando a caminhada menos penosa do que já é, pois o contrário é uma subida. Tenha especial atenção para os seus pés... sem eles você não vai a lugar algum. Escolha um bom calçado com solado mais duro pois o piso é todo de pedra e doi  a sola dos pés. É bom também ser uma bota de cano médio, pois isso ajuda no apoio ao tornozelo, evitando entorses. E não esqueça de usar duas meias para previnir bolhas. Não esqueça do protetor solar e do repelente. O sol, principalmente no primeiro trecho, é bem intenso, pois é uma área mais aberta e sem sombra. Já o repelente é essencial para o final dos dias, pois ao anterdecer a mosquitama é forte ( trata se de área de mata atlântica, não esqueça). Água no caminho não é problema, mas é bom levar comprimidos purificadores de água, como o Clorine por exemplo, pois tem muito plantio e criação de animais ao longo do caminho e isto certamente são fontes de contaminação da água. Ou dê preferência para coletar água em vertentes próximas dos tuneis, pois estas vertem pela rocha e já vem filtrada. Já sobre a comida, tem levar  para o trajeto todo, pois não tem nada no caminho para comprar. No campings só tem lanches. Faz frio a noite, mesmo na primavera, portanto não esqueça de levar um agasalho. Equilibre bem o peso de sua mochila e planeje bem tudo que vai levar. Aquilo que pode ser que não vá usar, não leve... é menos peso e suas costas agradecerão no final. Não esqueça de um bom kit de primeiros socorros. Nebacetin para eventuais bolhas nos pés e Cataflan para aliviar as dores nas pernas são bem vindos. Se for tomar banho na cascata do V 13 não esqueça de uma roupa para banho e chinelos (eu esqueci dos chinelos). O piso é muito irregular mesmo no camping e os seus pés já estarão bem doloridos neste trecho. Como tem duas boas bases de apoio no caminho, pode levar carregador de celular que vai conseguir carregar seus aparelhos em tomadas de energia (220V). Mesmo assim, ao longo dos trechos, andei com o celular no modo avião, pois como não tem nada de sinal ao longo da trilha, consegui utilizar outros aplicativos sem gastar muita energia da bateria. Não esqueça de levar lanternas. O breu dentro dos tuneis é total, sendo que o maior tem 2 km e proporciona uma caminhada de pelo menos 20 min em total escuridão. O ideal é levar uma boa lanterna de cabeça e mais uma de back-up. Ah e não esqueça de baterias sobressalentes. Acampei e dormi em uma rede com teto tipo rede de selva, mas não tem problema de levar barraca. tem muito espaço para armar uma.

      Apesar de haver placas no caminho informando que é proibido passar pelos viadutos a pé, não encontrei nenhum tipo de fiscalização, portanto a caminhada foi muito tranquila. E o trem só passou duas vezes em três dias, e ambas foram a noite quando eu estava acampado. 

      Outra dica que deixo é, quando encontrar com as pessoas locais, pare e converse... São pessoas simples mas incríveis, e que contam histórias fantásticas da época da construção da ferrovia. Encontrei um senhor de 78 anos com uma saúde de dar inveja, capinando uma plantação de fumo numa ribanceira ingrime e foram 10 minutos de uma aula de história.  

     Enfim, concluo dizendo que foi uma caminhada fantática e de grande aprendizado. Como falei no início, a caminhada é dura, mas a trilha vale muito a pena. Saí da ferrovia de alma lavada!! Boa caminhada!!!

Trace sua rota até lá

Entre os municípios de Guaporé, Dois Lajeados, Vespasiano Correa e Muçum, tudo no Rio Grande do Sul
Entre os municípios de Guaporé, Dois Lajeados, Vespasiano Correa e Muçum, tudo no Rio Grande do Sul

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Rodrigo Goncalves dos Santos
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