Na Pedra da Gávea, reencontro minha essência

Vivemos em um tempo em que sair da zona de conforto virou regra. Onde ficar no mesmo lugar é quase um crime contra a evolução. Mas e se, ao invés de sair, a gente pudesse reconhecer uma zona de conforto que nutre, que ensina, que acolhe?

A Pedra da Gávea é esse lugar pra mim.

Um território que me conhece

Não é só uma trilha. Não é só um ponto turístico. A Gávea é meu refúgio. Ali, cada curva me conhece, cada raiz sustenta meus passos. Já subi dezenas de vezes e nunca foi igual. Não porque o caminho muda, mas porque eu mudo. E a montanha, com sua presença firme e silenciosa, me permite perceber isso.

É um lugar onde eu não preciso performar. Onde o silêncio é bem-vindo. Onde eu posso ser, sem precisar explicar. As pedras que escalo me lembram das minhas fraquezas, mas também das forças que esqueci que tinha. O corpo reclama, sim. Mas ali, até o cansaço ganha sentido.

A presença que transforma

Às vezes vou sozinho. Às vezes, com amigos. Já subi em dias de sol forte e em manhãs nubladas. Já comecei leve e terminei exausto. Já comecei exausto e terminei em paz. Não importa o humor, o clima ou a companhia: sempre há um momento em que a mente silencia. E é aí que tudo muda.

É como se o barulho interno desse lugar à escuta. O corpo é tão presente no esforço de subir, que os pensamentos se recolhem. E o que sobra é o agora. A folha que cai. A pedra molhada. A água que brota do tronco. O som abafado da cidade lá embaixo. A trilha vira templo, e eu, parte do que está vivo.

Nesse momento, percebo: não é o topo que ensina, é o caminho que revela. Não preciso ir longe para me reencontrar. Preciso estar inteiro no que já conheço — e é isso que transforma.

O cume e o que se dissolve

Chegar ao topo da Pedra da Gávea é sempre um ritual. A vista é deslumbrante, claro. Mas o que me emociona não é o visual — é o que se desfaz dentro de mim. O medo que ficou pra trás. A dúvida que virou clareza. A dor que, de alguma forma, achou espaço pra respirar.

Subir ali é mais que superar um desafio físico. É um jeito de colocar a vida em perspectiva. De me lembrar do que importa. De sentir que, apesar de tudo, continuo em movimento. Não pelo aplauso, mas pela verdade de estar presente. Pela liberdade de não precisar ser nada além de mim mesmo.

Quando voltar é evolução

A Pedra da Gávea me ensinou que não é preciso ir longe pra se perder — basta ignorar o que se sente. E que constância não é sinônimo de estagnação. Voltar ao mesmo lugar pode ser uma escolha corajosa. Um compromisso com o que nos nutre.

Cada vez que subo, descubro uma parte minha que ficou adormecida. Percebo um medo antigo que já não dói tanto. Uma lembrança que agora me faz rir. Um cansaço que pede cuidado. A trilha me lembra que nem sempre o novo é onde está o crescimento. Às vezes, é no repetido que mora o reencontro.

A grande virada está em ter coragem de revisitar os próprios caminhos com um novo olhar. Menos armadura. Mais escuta. Menos fuga. Mais presença.

Qual é o seu lugar no mundo onde você não precisa provar nada — só existir por completo?

Se ainda não encontrou, talvez seja hora de voltar a algum lugar que um dia fez sentido. E redescobri-lo com o coração mais aberto, com os pés mais conscientes e com a mente menos exigente.

Porque às vezes, a montanha que nos cura é aquela que já nos conhece.

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