O que faz a gente voltar, mesmo depois de tanto sofrer

Tem horas que parece que a gente tá pagando pra sofrer. Literalmente. Junta uma galera, compra equipamento, acorda cedo num domingo, encara horas de estrada e começa a subir. E logo no começo, o corpo já começa a questionar: pra que tudo isso?

As pausas viram estratégia de sobrevivência. Um chocolate escondido na mochila vira salvação. A água acaba mais rápido do que devia. E no meio da subida, quando a vista ainda não compensa, começa a dúvida: será que é isso mesmo que eu vim procurar? Mas a gente segue. Porque tem alguém puxando o grupo. Porque tem alguém ficando pra trás. Porque se voltar agora dá mais trabalho do que continuar.

Não é só o corpo que é testado

Chega uma hora que o corpo falha. O coração dispara, a pressão cai, a vista escurece. É doce, é salgado, é banana, é sanduíche. É conversa fiada pra ver se distrai. E no fundo, ninguém quer demonstrar que está por um fio. Existe um tipo de silêncio que ronda os grupos nesse momento. Cada um tentando lidar com o próprio limite, fingindo normalidade enquanto faz cálculo mental de quantos metros ainda faltam.

O curioso é que esse ciclo continua. Anda, cansa, pausa. Repete. A diferença entre os que seguem e os que desistem nem sempre é preparo físico. Tem a ver com algo que se constrói aos poucos, entre o cansaço e a insistência. Um tipo de pacto interno que diz: só mais um pouco.

Depois da subida, a ilusão da trégua

Quando a subida acaba, a sensação é de alívio. Mas a descida não é gentileza. O joelho dói, a panturrilha ameaça travar, o pé começa a protestar. A gente escorrega, cai, machuca a mão. Corre de bichos. E a frase vem: “nunca mais volto aqui”.

Mas volta.

Volta porque, no meio do desconforto, nasce um tipo de prazer estranho. Não é o prazer da adrenalina, é o prazer de estar ali, no mundo real. De sujar a roupa, de cair e levantar. De rir do que deu errado. De sobreviver ao que parecia demais. E, principalmente, de ter histórias que fazem sentido porque foram vividas no corpo.

Uma força que não aparece nas fotos

Quem encara esse tipo de jornada na montanha aprende, cedo ou tarde, que nem todo desconforto é sinal de erro. Às vezes, é só o corpo lembrando que você está vivo, que está tentando, que ainda se move. A dor, o cansaço, as quedas e até as dúvidas fazem parte do mesmo movimento de quem escolhe continuar. E continuar, apesar de tudo, é o que vai desenhando uma força que não aparece nas fotos.

A força que mais importa é a que ninguém vê.

E depois de tudo?

Chega em casa, toma banho, come bem, deita na cama, relaxa. Olha as fotos, os vídeos, compartilha com os amigos. Dorme em paz. E começa a esquecer o quanto doeu. Porque o que fica é outra coisa. É aquela lembrança silenciosa de que você foi até o fim. Mesmo cansado. Mesmo inseguro. Mesmo com dor.

E então, quando alguém convida para a próxima, você hesita… e diz sim.

Por que será que, mesmo sabendo do sofrimento, a gente insiste em voltar?

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