Você já olhou de verdade para quem passa por você na trilha?
No trecho mais plano da caminhada, uma senhora surgiu descendo na direção oposta. A primeira impressão foi de surpresa: como alguém com tanta idade conseguiu subir tudo aquilo? O que chamou ainda mais atenção foi o sorriso estampado em seu rosto. Nos joelhos, faixas elásticas improvisadas. Na mão direita, um pedaço de pano servindo de luva. Ela apenas desejou uma boa caminhada e seguiu.
Enquanto isso, eu me percebia preso nas minhas próprias reclamações. O calor me incomodava, o tênis parecia apertado demais, a água já estava quente. Tudo era motivo para reclamar. Naquele instante, tudo parecia pouco, tudo parecia errado.
Foi inevitável comparar a minha insatisfação com a serenidade dela. O contraste era tão nítido que provocou silêncio. Não o silêncio leve da contemplação, mas aquele que pesa, que obriga a engolir o próprio ego.
Quando o problema não está fora
Essa cena revelou algo que demorou para fazer sentido. Muitas vezes, o caminho nos dá exatamente aquilo que pedimos: tempo, saúde, condições mínimas para andar. E ainda assim encontramos um motivo para achar insuficiente.
O que nos falta, na maioria das vezes, não é aquilo que pensamos. O que nos falta é uma forma diferente de enxergar. É reconhecer a sorte escondida nos detalhes simples. É parar de medir o caminho pelo que idealizamos e, em vez disso, aprender com quem já entendeu que seguir adiante é, por si só, uma conquista.
O poder de quem segue mesmo com pouco
Aquela senhora descia sorrindo porque não tinha outra escolha senão continuar. Não parecia lutar contra o que lhe faltava, mas se apoiar no que ainda tinha. E talvez seja isso que nos falta: menos exigência, mais aceitação.
Cada passo dela era uma lição sem palavras. Não era sobre superar limites de forma espetacular, mas sobre a naturalidade de continuar mesmo diante do que parecia impossível. E foi ali que percebi que o real obstáculo nunca esteve no terreno, mas na forma como eu o interpretava.
Quando o excesso vira ausência
Toda vez que reclamo de pequenos desconfortos, sinto que não é o caminho que pesa. É a expectativa. O excesso de exigência disfarça-se de falta. Quanto mais comparo o que tenho com o que imagino merecer, maior a distância entre mim e a gratidão.
Ver alguém avançar com menos do que eu possuo desmonta esse mecanismo interno. A realidade expõe que o problema não está nos recursos disponíveis, mas no olhar que insiste em desvalorizar o que já existe.
O verdadeiro privilégio
Se parar para pensar, caminhar com um corpo saudável, com tempo disponível e com equipamentos adequados já é um privilégio. Só que, na rotina, isso se torna invisível. É preciso cruzar com quem tem menos para perceber o quanto temos mais.
Essa consciência não nasce da comparação pela competição, mas do reconhecimento. Quando vejo alguém que, mesmo limitado, ainda sorri, entendo que reclamar dos meus pequenos incômodos é desperdiçar energia. O privilégio está no agora, mesmo que imperfeito.
Lição que fica
No fundo, a reflexão se resume a algo simples: o que falta em mim não é o que me falta de verdade. O que falta é enxergar melhor o que já está diante de mim. O terreno pode ser duro, mas é a mente que decide se sigo tropeçando ou aprendendo.
A caminhada daquela senhora me ensinou mais do que qualquer discurso. Não se tratava de força física, mas de disposição para continuar. Não era sobre alcançar um topo, mas sobre respeitar o passo que ainda é possível dar.
A forma como você enxerga o caminho define a distância que consegue percorrer.
Conclusão
O que vi naquele encontro transformou minha forma de enxergar não só a trilha, mas a vida. Reclamar é fácil quando temos muito. Difícil é reconhecer que o simples ato de caminhar já é um presente.
Da próxima vez que algo parecer pouco, talvez valha olhar para o lado. Pode ser que alguém esteja seguindo com menos, e ainda assim encontrando motivos para sorrir.
E você, já agradeceu pelo caminho que lhe foi apresentado?
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