Aconcágua (sem guia) PARTE 2

Ver parte 1: https://trilhandomontanhas.com/vanessa/aconcagua-sem-guia/

Continuação....

Passamos por um grupo grande, a expedição dos iranianos, todos exaustos, o guia se esforçando para fazê-los continuar se movendo. Finalmente nos aproximando do acampamento, pegamos um atalho pra onde estavam as barracas e escorreguei na neve caindo de costas no chão, mas a dorzinha foi pequena perto do alívio de chegar. E agora, descansar? Não. Pegar neve, derreter neve, hidratar, pegar mais neve, derreter mais neve pra cozinhar. E nisso escureceu. Mais um pôr do sol fantástico às quase 22:00, mas esse eu não saí pra olhar. Estava na barraca tentando voltar a respirar normalmente, enquanto o Andre repetia que pela manhã eu iria até os guarda-parques pra tentar contato com os médicos do acampamento base e ter certeza se eu podia continuar subindo. E eu dizia que tinha certeza que de manhã estaria bem. Prometi que estaria. Nessa noite dormimos eu, Andre e Zaney na nossa barraca, e o Philipp na dele que já estava em Nido. Andre deixou a sua em Plaza de Mulas. Zaney, desde que chegou ao acampamento, estava deitado na barraca quieto. Só falou que estava cansado demais. Não bebeu nada nem queria comer.. :( Enquanto eu segurava o fogareiro, Andre ia colocando mais neve dentro. Era o último litro e em seguida íamos fazer uma sopa. De repente eu precisava fazer xixi, e não era um bom momento... lá fora nevando muito, ali dentro sem espaço com as nossas coisas desorganizadas, o Zaney deitado e eu e Andre expremidos pra dar espaço ao fogareiro aceso cheio de neve. Uma novidade pra mim nessa expedição foi como eu não conseguia segurar xixi. Era desesperador... (agooora é engraçado). E com a dificuldade que eu estava pra respirar, qualquer movimento era exaustivo, a ponto de precisar descansar pelo esforço de mudar de posição na barraca. Entreguei o fogareiro para o Andre e pedi um pouco de espaço, peguei rapidamente a garrafa do xixi e o funil e fiz. Mas na agitação desse processo, senti um calor forte na nuca e na cabeça e uma dor repentina em toda a cabeça e lembro de dizer: “Agora eu estou mal”. Andre já foi afastando as coisas ao meu redor e me dizendo pra deitar. Fiquei bem assustada, passando pela cabeça várias coisas. Definitivamente não era meu melhor dia. Deu vontade de chorar. Uma sensação de frustração e desespero por causa do medo da possibilidade de não poder continuar a subida. Era mais isso do que qualquer pensamento sobre as consequências de algum problema sério de Mal da Altitude. Deitada, tentando me acalmar e respirar tranquilamente, repeti que estaria bem na manhã seguinte, mas já não falei com tanta certeza, e completei que se não estivesse bem desceria sozinha pra Plaza de Mulas de manhã. Enquanto isso Andre estava terminando de fazer a sopa e já avisando que eu tinha que comer. Eu não queria me mexer, mas me sentei e segurei a panelinha enquanto ele despejava a janta pra mim. Comi. E aos poucos, apesar de ainda com dor de cabeça, voltei a ter certeza que depois de dormir estaria bem...

E em seguida descobrimos que tínhamos outro problema, que no fim das contas veio a ser mais sério. Zaney disse que seus olhos estavam doendo e que não estava enxergando direito. Quando se virou e abriu os olhos, vimos que estavam muito vermelhos. Ele explicou que ficou um tempo sem os óculos durante a subida... Isso é muito perigoso, porque o trajeto estava completamente coberto de neve, e o sol o dia todo refletindo pra todos os lados. O risco de “cegueira de neve” ou “cegueira de altitude” é altíssimo. Como ele tinha subido sozinho à nossa frente, nenhum de nós estava por perto pra lembrá-lo de recolocar os óculos e, pelo mesmo motivo, não sabemos quanto tempo ele ficou sem, e ele também não se lembra bem. Naquela altitude, em um dia limpo e chão coberto de neve, a claridade e brilho da luz ao redor chega a ser quinze vezes maior que o considerado seguro para nossos olhos. Como não tinha nada que pudéssemos fazer àquela hora, decidimos dormir, e pela manhã analisaríamos a situação.

Definitivamente não estava sendo uma noite fácil pro Andre também, dividindo a barraca com duas pessoas em situações no mínimo preocupantes pra quem pretendia seguir subindo rumo ao cume do Aconcágua na manhã seguinte. Fiquei em dúvida se tomava um remédio pra dor de cabeça ou se era melhor não mascarar os sintomas... Acabei tomando pois não conseguiria dormir.

A noite foi de sono leve, a sensação era de estar acordada o tempo todo. Zaney com dor, se mexendo o tempo todo, não estava dormindo também. Ele disse que a dor estava só piorando. Como nos explicaram depois, quando se queima os olhos, é como queimadura de pele, na hora não dói, e depois vai piorando gradativamente. Dei a ele um analgésico/anti-inflamatório pra ver se o ajudava a dormir, mas ele preferiu não tomar. Andre acordava de tempos em tempos perguntando se eu estava bem. Acho que ele pensou que eu estava tendo algum tipo de edema. Confesso que também cogitei. Mas a noite foi passando e finalmente peguei no sono por algumas horas.

Acordei com um pingo de condensação derretida caindo na minha cara. Sentei calada fazendo um rápido autodiagnóstico. “How are you feeling?”. Perguntou Andre. “Great!”, respondi, apesar de ainda não ter certeza. “Really?”. “Yes”. “Good. Just as you said you would be... It’s good that you know yourself”. E então voltamos nossas preocupações ao Zaney. Ele disse que a dor estava um pouco melhor, mas estava enxergando mais embaçado. Andre foi checar a previsão do tempo e os guarda-parques perguntaram como estávamos. Ao ouvir sobre o Zaney, um deles desceu preocupado até nossa barraca, já com umas gases molhadas para colocar sobre os olhos dele e disse que a orientação deles era que ele descesse. Se decidisse subir, seria por sua conta e risco. E aí começou outro momento de decisões difíceis. Ele não poderia descer sozinho sem enxergar direito. Eu teria que abandonar a subida e descer com ele. Mas primeiro ele precisava decidir o que queria fazer. A decisão era difícil e era totalmente dele. E nisso se passaram mais duas horas. Fui me preparando pra sair, ainda sem saber qual o destino. Quando Zaney finalmente decidiu que iria descer, avisei ao Andre que eu desceria com ele. Mas ele disse que isso não fazia sentido, que eu não precisava descer. Subiu novamente aos guarda-parques e perguntou se havia porters que podiam acompanhá-lo até Plaza de Mulas. E havia. Dois porters tinham subido levando equipamentos ao camp 3 e desceriam na próxima hora, podendo acompanhar Zaney sem problemas. Com isso, Andre salvou minha chance de tentar o cume. Os guarda-parques ainda falaram que o Zaney podia esperar na tenda deles, pra ficarem acompanhando a situação dos olhos dele. Depois desceria com os porters e seria avaliado pela médica em Plaza de Mulas, para saber se nos aguardaria lá ou se seria evacuado de helicóptero. E assim ficou decidido que eu continuaria subindo com Andre e Philipp, agora sem mais ninguém do meu grupo brasileiro... :(

Rumo ao camp 3 (Cólera)

Com toda a situação, atrasamos muito pra sair. Já eram 14:30 quando começamos a subir. Mas o clima estava ótimo, e o trecho até o acampamento Cólera não era o mais longo. Os meninos dividiram a barraca entre eles, e deixei pra trás alguns itens que achava que seriam importantes, como a garrafa térmica, mas preferi reduzir o peso, com medo de ter o problema do dia anterior. Andre foi na frente, eu e Philipp atrás. Ele mais devagar hoje, porque estava com mais peso que eu. Esse caminho era o mais bonito até então, com vista pra uma imensidão de picos nevados.

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Um passo de cada vez, fomos subindo devagar, deixando o corpo aclimatar àquela altitude. Em algum ponto desse trecho alcancei a maior altitude em que já havia pisado, que até então era o cume do Nevado Pisco (5.752 m). Fiquei empolgada por estar me sentindo ótima :D . O caminho ia ficando mais íngreme, e com partes de gelo duro. Fiquei aliviada de estar calçando os crampons, embora fosse possível vencer esse trecho sem eles.

Avistamos o acampamento Berlim, que fica uns 50 metros verticais (ou menos) abaixo do Cólera. Lá há alguns refúgios de madeira semidestruídos. O acampamento é hoje pouco utilizado para ataque ao cume, principalmente por dificuldades para coletar neve limpa pra derreter, devido ao acúmulo de dejetos no passado. O acampamento Cólera, a 5.970 metros de altitude, é maior e mais plano que Berlim, porém um pouco mais exposto aos fortes ventos. Depois de vê-lo, me pareceu mesmo a melhor opção.

No final, talvez a uns vinte metros de chegar a Cólera, há uma corda de aço fixa pra evitar acidentes devido à inclinação, ao gelo, e às pedras soltas. Imagino que foi colocada principalmente por causa dos porteadores, que fazem constantemente esse trajeto com cargas quase absurdas nas costas.

Chegamos por volta de 17:30. Andre já tinha escolhido um lugar e estava começando a derreter neve. Montamos a barraca e fui encher o saco de neve pra continuar o processo. Fim de tarde lindo. A vista do outro lado da montanha, que pela primeira vez podíamos ver, revelava um mar de montanhas coloridas em tons de marrom, rosa e avermelhado. Valia a pena ir ao “banheiro” só pra ver a vista por trás das pedras que garantiam a privacidade. Falando em banheiro, acho que esse era o mais exposto a ventos... nada divertido.

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Nesse acampamento fica o Refúgio Elena, doado pela mãe da italiana de mesmo nome, que faleceu na tragédia de 2009. O refúgio deve ser utilizado apenas em casos de emergência, de acordo com regras estabelecidas pelo parque. O espaço interno é divido em dois compartimentos, sendo o primeiro dotado de um rádio para contato com os guarda-parques (frequência VHF 142.800 mhz). Após contato e avaliação da situação, é dada ou não a autorização para abrir a porta trancada do segundo compartimento. Se o refúgio for usado sem ser confirmada a situação de emergência, uma multa será cobrada. A partir do momento em que se utiliza o refúgio, se entende e se aceita que a tentativa de cume está cancelada, mesmo que sua situação melhore depois. O custo de conserto e reposição de itens utilizados no refúgio será cobrado da pessoa que fez uso. Parece que o primeiro compartimento tem sido utilizado também por porteadores e guarda-parques para manter alguns equipamentos.

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Vista a partir do acampamento Cólera (camp 3). Ao fundo, o início do caminho para o cume.

Algumas nuvens “baixas” passando, e a preocupação batendo... Nossa janela pra tentar o cume era de um único dia, já que a previsão era de começar a nevar por volta das 16 hs e de aumentarem os ventos, iniciando mais uma possível semana inteira de tempo ruim. Por volta das 22 hs, com muita ansiedade, tentamos dormir, com o despertador marcado pra 02:45. O plano era sair às 04:30. Demorei pra pegar no sono... mais por euforia do que pelos efeitos da altitude. Estava muito perto do objetivo e muito curiosa sobre como seria. Como seria respirar naquele trecho, como seria olhar pra baixo lá de cima, como seria a sensação de conseguir chegar lá... Eu conseguiria mesmo? As roupas seriam suficientes pro frio? Eu saberia identificar algum sintoma sério do mal da altitude? Teria coragem de decidir voltar se fosse necessário? Provavelmente os meninos iriam mais rápido que eu... quão mais lenta eu poderia ser sem atrapalhar nosso horário de retorno ao acampamento base? E se a previsão do tempo mudasse???

O vento estava forte. E não parava. A barraca sacolejando e o horário de acordar chegando. Não tenho certeza se eu tinha dormido por uma ou duas horas... ou menos, ou mais... E o despertador tocou. O vento continuava forte, mas começamos devagar a nos preparar. Parece que a previsão do tempo estava mesmo errada, pois era pra estar praticamente sem vento nessa madrugada...

Com essa preocupação ficamos ainda mais devagar, já entendendo que talvez tivéssemos que adiar o horário de saída. Peguei meu miojo pra preparar, mas o Andre insistiu que eu precisava de mais calorias e me deu um dos seus pratos liofilizados. Era um macarrão com bacon e um caldo gorduroso delicioso. Lembro bem da sensação de mastigar e sentir o gosto bom de bacon a 6 mil metros de altitude depois de tantos dias na montanha. Eterna gratidão! Nos hidratamos, enchemos as garrafas com água morna, preparamos as mochilas (água, barrinhas de cereal, sachês de gel de carboidrato, biscoito recheado, lanterna reserva, remédios pra altitude...). Os liners das botas duplas dormiram comigo no saco de dormir pro calor secar o suor do dia anterior. Mas ao conferir vi que em vez de secar tinha congelado. Raspei com as unhas a camada de gelo que tinha se formado por dentro, mas não adiantou muito. Se pudesse voltar atrás, teria colocado um saco plástico por cima das meias durante o percurso Nido - Cólera pra não passar umidade pro liner nesse dia crucial. Colocamos aquecedores químicos nos pés e nas mãos. Vestimos todas aquelas camadas de roupa. E as botas duplas, gaiters e crampons. Manteiga de cacau na boca e no nariz. Balaclava, gorro, óculos e câmera. Olhei no relógio: 05:25. O céu ainda negro, bastante estrelado, mas as cores começavam a aparecer no horizonte leste.

Tirei umas fotos e coloquei as mittens. Malditas mittens. Não consigo fazer nada com aquilo nas mãos. Até pegar o bastão fica difícil... Imagina pra comer, beber água, ajeitar a balaclava... Não vai ser fácil, pensei...

05:25 am. Dia 29 de dezembro de 2016.

Ataque ao cume

Comecei a subir na frente, me sentindo bem, e Andre logo me alcançou. Como já tínhamos combinado, ele subiria mais rápido porque estava  preocupado com o risco de frostbite, pois vinha sentindo muito frio nos pés. Confirmou se eu iria esperar o Philipp, que vinha mais atrás, e eu disse que sim. “Lembrem de comer de hora em hora, marca no relógio, de hora em hora! espero vocês no cume!” e sumiu montanha acima naquela velocidade absurda dele.

O vento tinha finalmente acalmado e, apesar de estar fazendo entre -25 e -30 graus, não parecia tão frio assim. Acho que as roupas estavam funcionando bem. Mas eu estava sentindo o frio nas mãos e nos pés... Em uma das mãos o aquecedor químico funcionou, conforme eu fazia o movimento de abrir e fechar os dedos, sentia o calorzinho. A mão que segurava o bastão ficava mais fria, então eu revezava. Nos pés os aquecedores não funcionaram...

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Às 6 hs o sol começou a clarear o cenário. Lindo demais. A partir daí, já não sei dizer de qual ponto a vista era mais espetacular. Não dá pra afirmar que a vista no cume é mais bonita que a de qualquer momento em que eu olhava ao redor nesse trajeto. As sombras, as cores, o jogo de luzes no céu, os reflexos do sol dourando os picos no horizonte. Difícil saber o que tirava mais o fôlego, a altitude ou a beleza daquilo. Se eu não conseguisse chegar ao cume, toda a empreitada já teria valido (e muito) a pena pra estar ali. E a cada passo eu estava mais perto do cume, mais feliz... e sentindo mais o frio.

Pra tirar fotos, comer ou beber água, eu precisava parar e tirar as mittens. Quando tirava, mesmo com as outras camadas de luvas, as mãos gelavam rápido. Então fazia uma coisa de cada vez. Bebia água, colocava as mittens de volta e andava mais um pouco até as mãos reaquecerem. Parava. Tirava as mittens e pegava algo pra comer. E assim por diante. Nessas pequenas paradas, os pés gelavam também. Sentia o frio na parte de cima dos pés como se estivesse ventando neles, embora isso fosse impossível com a carcaça da bota dupla e ainda os gaiters por cima.

Ainda na primeira parte do trajeto, por volta das 06:30, o momento mais mágico: olho pra trás e vejo um triângulo se desenhando no céu, crescendo de cima pra baixo próximo à linha que separava a faixa azul do laranja cor de fogo no horizonte. Era a sombra do Gigante projetada a oeste por centenas de quilômetros, cruzando a fronteira com o Chile e se estendendo sobre o Pacífico. Um jeito interessante de se ter noção da imensidão do Sentinela. E aí a gente se sente tão pequenininho... e o coração bate mais forte com a adrenalina de estar ali fazendo parte daquela montanha, fazendo parte daquela imensidão. Nos minutos seguintes, a sombra foi ficando maior e mais nítida. Naquela hora, lembro de ter a sensação de que não havia vento, nem frio. Mas sei que a sensação era falsa e na verdade tava ventando bastante, porque a capinha da minha câmera caiu e o vento levou embora antes que eu conseguisse alcançá-la..

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Quanto mais subia, mais frio ficava. Mesmo depois que o sol nasce, continuamos na sombra gelada por horas, porque a rota normal leva ao cume por trás da crista da montanha, a noroeste. Saindo de Cólera às 05:30, só peguei sol em dois pequenos trechos onde se passa pelo topo da crista: às 6:40, apenas por alguns metros, e depois no Refúgio Independência, onde cheguei às 08:20. Depois disso, só alcancei o sol quando cheguei ao ponto chamado de “La Cueva”.

Quando parava pra esperar o Philipp, eu ficava batendo os pés no chão pra esquentar. Ele disse que estava com os pés quentinhos! (mas a bota dele era do tipo recomendado pra montanhas de 8 mil metros).

Passamos por alguns grupos guiados descendo de volta. Depois fomos saber que eles haviam desistido do cume porque “estava frio demais”. Tinham saído do acampamento às 4 horas e chegado até perto do início da Travessia, de onde decidiram retornar. Perto de chegar ao Refúgio Independência, me encontrei com os mexicanos que havíamos conhecido em Plaza de Mulas, Gustavo e Javier. Gustavo conseguiu fazer o cume no dia 19, e Javier não. Mas esperaram passar a semana de nevasca e subiram juntos novamente pra essa segunda e última tentativa de chegarem juntos ao cume. Novamente Javier não estava bem o suficiente, e principalmente por causa do frio e do risco de frostbite decidiram voltar. Tem uma subidinha íngreme ali, logo antes de chegar ao platô onde fica o refúgio, e pelo visto eu escolhi o caminho mais difícil... Quando o Gustavo me avistou subindo fez sinal pra eu contornar à direita, mas pra não ter que voltar uns metros eu segui por ali mesmo. Obrigada crampons! (porque sem eles não daria).

Nessa hora o Philipp estava ficando bem atrás, mas terminei de subir até o platô. Chegando lá, sol! Por trás de umas rochas na beira do penhasco, mais um daqueles xixis com vista extraordinária! kkk Esperei o Philipp chegar lá. Enquanto isso, fotos, hidratar, comer...

O pequeno refúgio de madeira está bastante destruído, não serve muito pra proteger dos ventos mais. Quando se chega aí, dá impressão de já termos passado da metade do caminho, mas ainda estamos a 6.370 m (400 metros verticais vencidos, do total de 992 m a vencer nesse dia).

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Vista a partir do Refúgio Independência às 8h30. O caminho correto é por onde está vindo a pessoa de amarelo. Aquele vindo na sombra é o Philipp, pelo mesmo caminho íngreme que eu peguei.

Philipp chegou muito cansado, disse que não estava se sentindo bem. Não queria comer, estômago ruim. Insisti que comesse e descansamos mais uns 10 minutos. Tínhamos à frente um pequeno trecho de subida antes de passar pelo local conhecido como "Portezuelo del viento" e iniciar “la travesía del Gran Acarreo”. Eu estava me sentindo melhor que em qualquer dos trechos mais baixos da montanha, por incrível que pareça, e achava que a sensação de frio nos pés estava dentro do normal. Seguimos, Philipp dizendo pra eu não esperá-lo porque ele achava que não ia conseguir chegar, e que se eu ficasse esperando não ia conseguir também. Mas depois dele ter me esperado e ajudado muito na última subida a Nido, eu não pretendia deixá-lo pra trás.

Durante todo o trecho da travessia, o vento estava mais forte, constante, e muito gelado. Esse trecho é muito exposto. Se pisar errado, pode rolar até o acampamento base (exageros à parte rs). Em alguns pontos a neve estava bem escorregadia. Mais uma vez os crampons sendo importantes. Foi o trecho onde mais senti o frio. Bem mais que antes do sol nascer. Meu pé, debaixo das camadas de meias, bota interna, carcaça da bota dupla e gaiters, estavam gelando de uma forma incômoda. Falei pro Philipp que ia esperá-lo na próxima rocha, onde parecia estar batendo sol, mas foi só impressão, nada de sol... Esperei por ele batendo os pés no chão pra tentar esquentar. Não adiantou muito, ou eu não teria tido o problema de princípio de congelamento que tive...

Comecei a sentir que meu nariz estava ficando dormente, puxei a balaclava para cobri-lo, mas me atrapalhava a respirar, então segui tentando cobrir o nariz com a mão livre. Já podíamos avistar “La Cueva”, último ponto de descanso antes de subir a Canaleta rumo ao cume. Também costuma ser o último ponto de desistência, pois, quem não está bem ao chegar lá, não encontra uma visão muito motivadora ao olhar pro resto do caminho acima. Lá já estava batendo sol, finalmente! Avisei ao Philipp que esperaria lá no sol. E segui, tentando acelerar pra esquentar, e com isso quase levei uns tombos perigosos pisando de mau jeito com aqueles trambolhos de botas duplas e crampons nos pés.

O sol começou a passar por cima da crista e me alcançou um pouco antes de chegar à La Cueva. Chegando lá, escolhi uma pedra ao sol pra sentar e fiquei um tempinho com o rosto virado pro sol esfregando o nariz. (Depois fui saber que uma menina teve frostbite no nariz nesse mesmo dia). Passei filtro solar, bebi água, comi umas barrinhas... A vista era incrível. Bem à minha frente estava o imponente Cerro Mercedário. Uns 20 minutos depois, Philipp chegou. Descansamos por mais uns 15, enquanto eu tentei convencê-lo a continuar, mas ele estava com dor no estômago e se sentindo fraco... com medo de seguir e não estar bem o suficiente pro caminho de volta. Nós dois preocupados também com o tempo que íamos gastar a partir dali até o cume, pois tínhamos que voltar até Plaza de Mulas nesse mesmo dia ainda, plano um tanto quanto audacioso. Andre provavelmente já estava no cume. A gente não sabia por quanto tempo ele ficaria lá esperando. Nessa hora alguém nos falou que faltavam mais umas três horas até lá em cima. Philipp insistiu que não daria tempo dele chegar, considerando o jeito que ele estava se sentindo. Eu também imaginei que eu não chegaria a tempo, mas queria tentar. Philipp decidiu que realmente iria voltar dali. Iria descendo devagar e parando pra descansar e nos aguardaria em Cólera. E eu seguiria até encontrar com Andre, que provavelmente estaria descendo na próxima hora. Encontrando com ele eu desceria junto, perdendo o cume, pra não arriscar o nosso retorno. Mas as coisas acabaram acontecendo um pouco diferentes...

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Ao amanhecer do dia do cume, ainda dando pra avistar o acampamento Cólera lá embaixo. Mercedário ao fundo.

Era entre 11:15 e 11:20 quando comecei a subir a canaleta. Às 13 hs eu chegaria ao cume, só 1h45m depois, em vez das 3 hs que haviam nos informado... E pra minha surpresa, Andre ainda estaria lá esperando.

A canaleta realmente é íngreme como dizem, mas creio que fica mais fácil com neve como estava, em vez de terra com pedras soltas. Um dos problemas ali foi o “engarrafamento”. Dois grupos guiados estavam à minha frente, em fila indiana, muuuuito lentos. Pra ultrapassar tem que ter muito cuidado, pra não desequilibrar ninguém, e pra não cair por pisar em pontos ruins fora da “trilha”. Uma pessoa de um desses grupos deitou no chão de repente, e parecia estar tentando ajustar seus crampons, mas estava balbuciando coisas sem nexo e não dava espaço pras pessoas passarem. Alguns ofereceram ajuda mas ele não deixava. A fila ficou parada até que o guia o alcançou pra prestar auxílio. Desceram com ele, e, pelo visto, estava com sintomas de edema cerebral, mas depois de descer ficou bem. Pouco depois encontrei com os russos (letonianos) descendo do cume. Nunca vou esquecer do sotaque engraçado do Alex me dizendo: “Andrew your friend is waiting for you on the summit, for TWO HOURS!” rss E ainda gastei 1h20m depois disso... Ele tinha chegado ao cume em incríveis quatro horas e pouco (!!!), e esperou no cume por quase três horas e meia!

Depois que consegui ultrapassar esses grupos, sentei exausta numa pedra, sentindo os batimentos a mil. Tinha passado dos 6.700 m, altitude apontada por muitos como onde começa o grande desafio do Aconcágua em relação à falta de oxigênio (como se já não fosse um desafio desde o começo). E realmente, cada passo ficou mais penoso. Eu já estava me aproximando do Filo del Guanaco, crista que conecta o cume sul ao cume norte. Dali já avistava o cume e todo o percurso até lá, e podia ver que o Andre não estava descendo ainda. Tentei ir o mais rápido que pude, porque ia ser devastador ter que virar as costas pro cume estando tão perto! Acelerava cinco ou dez passos e parava pra não deixar o coração saltar pra fora. Não ouvia nada ao redor, e não pensava em nada também. Uma paz absurda e todo o meu universo focado em dar mais cinco passos. E batia aquela ansiedade de estar chegando lá. E eu já não sabia mais se o coração batia tão rápido por causa da altitude ou por causa da adrenalina rs. Comecei a sentir calor, (calor!!) e guardei umas camadas de blusas na mochila, e as mittens. Mais cinco passos. Respira. Mais cinco passos. E de repente olho pra cima e vejo o Andre lá na ponta balançando os braços. Subi os últimos dez minutos o mais rápido que pude, enquanto o Andre tirava fotos do meu esforço haha.

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Olhei pra trás e vi o amontoado de nuvens cobrindo a face sul e girando em torno dela. “Temos que descer!” pensei. Dei os últimos passos, subindo por algumas rochas, e estava pisando no cume! Alegria total. Sensação de euforia e pressa. Porque a gente tinha que descer logo. E enquanto o Andre me abraçava parabenizando pelo cume eu já dizia “eu sei, temos que descer”. Andei um pouco em cima do platô, tentando aproveitar bem aqueles minutos e já tava angustiada por não poder ficar muito lá em cima kkk... Procurei o ponto mais bonito pra fazer o que tinha prometido ao Carlo e fiquei muito feliz por ter conseguido cumprir o favor.

Nessa hora percebi uma leve dorzinha de cabeça... lembrei que tinha bebido pouca água na reta final. Então bebi suco e comi umas bolachas antes de descermos. A altitude, era como se eu não sentisse mais... esqueci. Frio? Também não, não ventava quase nada nesse momento. O que eu senti lá em cima? Um grande nada e um grande tudo. Sensação de completude e de esvaziamento. Nada na mente, absolutamente nada além da felicidade de estar ali e da leve preocupação em ter que voltar. E aquela coisa da gente se sentir pequeno e grande, eu senti em outros momentos na montanha, mas não ali. Aquela sensação de liberdade e de ser invencível? Sim, um pouco... Mas predominava uma sensação de gratidão. Gratidão a seja lá quais foram as forças do universo que me permitiram ser capaz de chegar ali e de viver tudo aquilo, e gratidão gigantesca aos parceiros que foram comigo até o final (Philipp e Andre), e aos que estavam no início (Carlo, Greison e Zaney). Essa sensação de gratidão foi muito nítida e real.

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E depois de dezoito dias na montanha pra chegar até ali, e ficar só por quinze minutos, não dá pra dizer que o cume é o mais importante, porque não é.

... E começamos a descer. Olhando a canaleta de cima pra baixo, parece ainda mais íngreme, e cansa bastante pra descer, com as pernas tremendo tentando firmar a cada passo. Ainda tinha gente subindo, que tinha começado mais tarde, o que pareceu boa ideia já que a previsão do tempo, no fim das contas, estava meio errada, e não nevou a partir das 16 hs como previsto. Pra nós de qualquer forma não havia essa opção, pois não daria tempo de voltar ao acampamento base se não tivéssemos começado a subir de madrugada.

Meus olhos estavam ardendo. Acho que os óculos não estavam suficientes. Coloquei o boné por cima do gorro pra ajudar a bloquear a claridade. Nessa hora já estava ventando mais, e algumas vezes tive que correr atrás do boné que voou da minha cabeça. Meus crampons, que na subida funcionaram perfeitamente, começaram a acumular neve embaixo, pois estava mais pegajosa, virando quase uma segunda bota. Péssimo de andar e perigoso, porque ele perde a função de agarrar ao chão. Alcançamos os russos uma meia hora antes de chegarmos em Cólera. Estavam bem cansados.

Quando chegamos no acampamento Cólera, minhas pernas já quase não estavam respondendo mais. Philipp estava na barraca descansando, e já se sentia melhor. Acabou descendo muito devagar e fazia pouco tempo que tinha chegado também. Tirei os crampons, abrimos a porta da barraca e deitamos com as pernas pra fora pra não precisar tirar as botas. A gente precisava comer. Andre comeu meu miojo que tinha sobrado. Comi o resto das barrinhas, bananinhas e sachês de açúcar. Andre queria mudar o plano e dormir ali essa noite, mas a gente não podia, do contrário o Philipp perderia o voo. Com um pouquinho de insistência, decidimos descansar uma meia hora e descer. Andre conseguiu um pouco de água com um grupo que iria ficar, pra gente não ter que gastar tempo derretendo neve. Desmontamos acampamento e descemos. Os russos, que tinham decidido dormir em Cólera, mudaram de ideia e desceriam em seguida também. Vimos mais três pessoas descendo à nossa frente depois que passamos de Nido. Todos os outros grupos ficariam em Cólera descansando aquela noite.

As nuvens estavam subindo e tudo ficando encoberto ao redor. Não dava pra enxergar mais que 15 metros à frente. Mas a gente sabia a direção. Entre tombos e escorregões, chegamos a Nido. Enquanto o Philipp desmontou sua barraca, guardei como pude as coisas que tinha deixado ali, ficando muitas coisas penduradas pra fora da mochila. Separei as coisas que íamos tentar deixar com os guarda-parques pra não ter que carregar (principalmente comida e gás que tinham sobrado). Aceitaram tudo e nos parabenizaram pelo cume. Verificamos com eles a previsão do tempo e realmente tinha mudado. Só ia nevar no outro dia. Nos alertaram pra tomar cuidado na descida pelo caminho direto porque o gelo estava duro e liso. Os guarda-parques também nos deram notícias do Zaney, que estava bem e que por precaução tinha sido evacuado de helicóptero até a entrada do parque.

Quando saímos de Nido já eram quase 19:20 (eu só sei todos esses horários porque ficaram registrados nas fotos rs). Essa próxima parte da descida inicia com pouca inclinação, mas depois fica bem íngreme. A mochila agora tava muito pesada, e eu muito cansada, mas lembro de comentar que estava tranquilo. As nuvens tinham ficado acima de nós, e pra baixo estava limpo, visibilidade total.

O bom das nuvens acima foi que amenizou o reflexo do sol na neve... depois desse longo dia, meus olhos já estavam castigados. Deveria ter investido em óculos melhores. A temperatura estava ok, e tínhamos claridade até quase 22:00 (2,5 hs pra chegar até Plaza de Mulas então).

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Trechinho mais 'tranquilo' da descida, saindo de Nido.

Quando o caminho começou a ficar mais íngreme e os passos mais lentos pra não escorregar no gelo, o cansaço bateu de vez. Cada passo era uma tortura, e o sol baixando... Maior mistura de felicidade e exaustão que já senti. O peso da mochila e a inclinação faziam muita pressão sobre as pontas dos pés, principalmente por causa das botas duplas duras. Tudo que eu queria era arrancar aquilo, mas teria que carregá-las, e gastaria um tempo pra conseguir prendê-las na mochila. Além disso, nessa hora meus pés tavam molhados de suor, e ficariam gelados nas botas normais. Quanto mais descia, mais doía, e mais longe parecia. E eu ainda não fazia a menor ideia de que tinha pré-congelado os dedos naquele dia. O trecho entre o acampamento Canadá e Mulas estava péssimo, levei vários tombos de bunda deslizando no gelo. No fim tava tão exausta e com dor que tava prestes a sentar e chorar, mas não ia resolver nada né... Já tava praticamente escuro quando chegamos no trecho dos penitentes, e ainda caí uma última vez com o isolante térmico agarrando entre dois deles. Mais uns cinco ou dez minutos e chegamos à barraca, já totalmente no escuro. Suponho, então, que era pouco antes das 22:00.

Arranquei fora as botas duplas e calcei um par de meias secas confortáveis e os meus chinelos. Passei o resto da noite mancando de dor. Fui até a tenda da Lanko pra avisar que íamos embora no dia seguinte e pra ver como tinha ficado a situação da mula que a gente tinha contratado, se o Zaney tinha usado metade ou não... No helicóptero só podem ser levados seis quilos de pertences com a pessoa. Ele tinha deixado a bolsa com as coisas dele na tenda da Lanko pra eu levar pra ele. O problema que surgiu foi que a gente tinha que ter avisado até as 17 hs pra garantir a mula pro dia seguinte. Como não avisamos, só dava pra ter certeza se teria a mula no outro dia de manhã quando os muleiros chegassem...

Enquanto o Philipp estancava o sangue do seu nariz, que tinha começado a sangrar nessa hora, tomei um “banho” de lenço umedecido e troquei parcialmente de roupa pra me sentir no clima de comemoração kkk, e fomos pra tenda verde comer a pizza prometida pelo Andre. Deliciosa, mas a melhor parte da noite foi voltar pra barraca e entrar no saco de dormir pras merecidas e insuficientes horas de sono, já que a gente planejou levantar cedo pra organizar tudo pra partida. Dormi torcendo que aquela dor nos dedos melhorasse até de manhã.

A noite passou num piscar de olhos. Acordamos e começamos a desmontar acampamento e organizar as coisas. Levamos os sacos com lixo para a Lanko, e confirmamos que poderíamos usar a mula. Em seguida fomos aos guarda-parques entregar os sacos vermelhos com os cocôs (kkkk) e fazer o check out. Eles carimbam nosso permiso, indicam um tonel onde devemos jogar os sacos, e nos perguntam se fizemos cume, creio que para as estatísticas extraoficiais.

As comidas, gás e outros itens que tinham sobrado no acampamento base, doamos à APA (Asociación Porteadores Aconcagua), como uma pequena forma de retribuir pela festa de natal. Aceitaram inclusive a panela toda entortada que eu tinha usado pra quebrar neve/gelo pra derreter.

Como o Carlo e o Greison tiveram que levar suas coisas quando decidiram ir embora, a mula que contratamos para dividir por quatro estava com espaço/peso sobrando, e deu pra colocar quase todas as coisas do Philipp e Andre também, pra podermos acelerar o passo no caminho de volta. O que não coube dividimos entre nós três.

Aqueles últimos 28 quilômetros

Sexta-feira, 30 de dezembro de 2016. Nosso último dia no Aconcágua. Saímos de Plaza de Mulas por volta das 11:50. Tempo aberto, vento razoável. Quase sem peso, seguimos rápido, mas as pequenas subidas ainda roubavam o fôlego. Meus pés estavam doendo menos, tranquilo pra andar. O objetivo era chegar até as 18 hs na saída do parque. Passamos a Playa Chica com facilidade, e a Playa Ancha foi tão interminável quanto na ida. Com o vento soprando contra nós e eu com alguns vários quilos perdidos, tava tendo que fazer mais força que o normal pra andar pra frente. Mas o caminho tava lindo. Sem os quase 20 kg da ida nas costas, dá pra olhar mais ao redor e admirar a grandiosidade daquelas montanhas negras, marrons e coloridas.

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Atravessar o rio tava mais complicado, o nível da água tinha subido bastante com as nevascas das semanas anteriores. Em um dos trechos, já no fim da Playa Ancha, tive que tirar as botas e entrar na água barrenta do rio Horcones pra passar. Molhar os pés não foi a melhor coisa nessa hora, favoreceu as bolhas que não tinham surgido até então.

Antes de chegar a Confluência tem a descida pra atravessar a ponte, e depois a subida até o acampamento. Que subidinha malvada naquele momento de fim de forças. Chegamos ao acampamento e paramos por uns dez minutos pra comer, ir ao banheiro e encher as garrafas de água pro resto do caminho.

No trecho entre Confluência e Horcones, passamos por vários grupos que iam fazer o trekking até Plaza Francia ou Plaza de Mulas e alguns iniciando a expedição ao cume. Num clima bastante diferente de quando entramos, eles vestiam roupas de verão. Os dias que vinham adiante prometiam ser bem mais amenos que os da nossa longa aventura. Olhando pra trás agora, eu não trocaria o que passamos por uma opção menos sofrida e com menos desafios, porque talvez seria também menos incrível e recompensadora. No fim, foi tudo perfeito, e eu não trocaria nada. Na verdade, queria ter passado um pouco mais de frio, saindo mais vezes da barraca de madrugada pra olhar o céu. Queria ter sofrido um pouco mais saindo do saco de dormir antes do sol nascer pra ver a montanha amanhecer. Na próxima, vou me esforçar pra “sofrer” um pouco mais.

Chegando a Horcones, encontramos com Ravi, e soubemos porque não o vimos no dia do cume. Ele havia saído de Cólera antes das 4 hs, e abortou a subida por causa do frio, voltando pouco antes de nós começarmos a subir..

Era pouco depois de 18 hs. Com algumas informações divergentes, ficamos em dúvida se a portaria principal, que fica mais abaixo, estava ou não aberta. Então apresentamos o papel do check out ali mesmo, destacaram o canhoto e nos liberaram, sem nenhuma formalidade. Teoricamente, o permiso vale por 20 dias. O do Philipp já havia expirado dois dias antes, mas nem olharam isso. Entraram em contato com a Lanko para avisar que a gente estava ali, e em uma meia hora chegaram pra nos buscar. Ravi foi com a gente. Paramos em Puente del Inca, onde corri até o hostel/refúgio El Nico para pegar a mochilinha que eu tinha deixado guardada lá. Queria dar as boas notícias ao Cesar e agradecer pelos conselhos, mas ele não estava. Seguimos para Los Penitentes, onde pegamos nossas coisas trazidas pelas mulas. Ali pegaríamos o ônibus Buttini para Mendoza às 20 hs. Da oficina da Lanko até o ponto de ônibus tínhamos que andar uns 300 ou 400 metros e atravessar a rodovia. Tivemos que fazer duas viagens cada pra levar toda a bagagem, incluindo a do Zaney. Quando pegamos esse ônibus na vinda, como embarcamos na rodoviária em Mendoza, pediram “propina” (gorjeta) por causa do excesso de peso no bagageiro do ônibus. Na volta, na pressa pra embarcar todo mundo rápido e não demorar parados na estrada, não pediram nada. Pagamos pelo ônibus ali mesmo ao entrar, não é necessário comprar passagem antes.

Já sentada no ônibus, aquela sensação de alívio. Agora podia dormir naquelas próximas quatro horas de viagem, mas quem diz que eu conseguia com tanta coisa passando na cabeça? O ônibus fez uma parada pra lanche, onde comprei uma merecida coca-cola pra repor a glicose gasta no dia. E o resto do caminho foi cheio de flashs dos últimos 19 dias passando na memória...

De volta a Mendoza e a surpresa do frostnip...

Chegamos a Mendoza meia noite. Um último esforço pra carregar toda a tralha até o ponto de táxi do outro lado da rodoviária. Nos despedimos do Philipp que de manhã já pegaria o voo de volta pra Berlim. Ainda encontraria com Andre e Ravi no dia seguinte para comemorar a virada do ano, e com a Eileen, que também estava em Mendoza ainda. Cheguei ao hostel (Windmill) por volta de 00:40, torcendo pro Zaney estar lá! Se ele não estivesse, não sei como eu faria pra levar as coisas dele pro Brasil. Mas ele estava, ufa! O pessoal do hostel me ajudou a levar as coisas pra dentro e me disseram que o Zaney tinha saído pra comer, mas estava hospedado lá sim, e já estava com os olhos recuperados :D . Agora era o momento do tão esperado banho depois de 19 dias! Pensa num cheiro de cachorro molhado que não saía do cabelo por nada! Kkkkkk Quando o Zaney chegou, cozinhamos um macarrão que tinha voltado sem querer na bolsa dele, e comi enquanto nos colocamos a par dos acontecimentos. Já havia passado das 03:00 quando mandei notícias pra minha mãe e amigos e fui deitar. Logo que acalmei os ânimos e comecei a pegar no sono, senti os dedos dos pés latejando um pouco, mas nem dei bola e dormi.

Dia 31 de dezembro, acordei a tempo do café da manhã. O pessoal estava preparando a decoração da festa de réveillon que teria à noite. Percebi que meus pés estavam um pouco inchados, e os dedos vermelhos. Ainda estava pensando que a dor e o vermelho nos dedos eram por causa da descida do cume com as botas duplas. Já o inchaço no pé começou a me lembrar de quando subi o Pisco no Peru e de como meu pé inchou por causa, supostamente, da altitude. Fui devolver as botas duplas e mittens que tinha alugado. Voltando para o hostel, senti o inchaço aumentando, e o chinelo já não estava cabendo direito no pé. À noite encontrei com o pessoal e fomos celebrar a virada, e o inchaço e dor aumentando... até que chegou um momento que eu já não aguentava a dor nos dedos. Até o tornozelo estava inchado igual um pão, emendando com a canela. Voltei pro hostel e tentei dormir. Mas os dedos tavam latejando muito, como se tivesse acabado de chutar a quina do sofá com cada um deles....

Tomei um anti-inflamatório, que não ajudou muito, e passei a noite meio acordada, entre cochilos e aquela dor pulsante. Acordei e estava muito mais inchado. Peguei o ônibus pra Santiago às 10:30. E no caminho continuava a dor pulsante. Cheguei no hostel em Santiago no fim da tarde, e meu voo pro Brasil era na manhã do dia seguinte (2 de jan). À noite já estava doendo o pé inteiro, principalmente pra pisar, e tava ainda mais inchado, e aí eu tive certeza que a situação tava pior do que foi o inchaço de setembro depois do Pisco. Conversei com duas pessoas experientes em doenças de altitude, expliquei os sintomas e mostrei fotos. A conclusão foi de que eu tinha tido um início de congelamento, chamado de frostnip, que é o 1º estágio de um frostbite. Isso explicava a dor e o escurecimento das unhas (algumas foram escurecendo mais até ficarem pretas e soltarem, outras soltaram sem ficar pretas). Quanto ao inchaço, também acontece nos casos de frostnip, mas geralmente não tanto quanto aconteceu comigo. Existe outro sintoma de altitude que é o edema periférico, mas acomete mais as mãos e o rosto. Dada a minha experiência prévia com esse sintoma nos pés, suponho que tenha sido isso. Outra explicação pro inchaço teria sido o sangue ter engrossado muito por causa da aclimatação, atrapalhando a circulação nas pernas. Ou a junção de todos os fatores. Enfim, esse campo ainda não foi suficientemente estudado pra se ter certeza das causas apenas pela descrição de sintomas. De qualquer forma, a recomendação era anti-inflamatório, evitar bebida alcoólica (porque desidrata), beber muita água, e, principalmente, manter os pés quentes. De volta a Belo Horizonte, dormi com os pés pra cima pra ver se ajudava a desinchar. De manhã pareciam melhor, mas ao longo do dia, enquanto eu estava no trabalho, foram inchando de novo mais e mais, e à noite aquela dor. E foi assim por mais dois dias. Chegando do trabalho eu fazia compressa com água quente e deitava com os pés pra cima na parede. E de manhã tava melhor, mas piorava ao longo do dia. Até que aos poucos foram voltando ao tamanho normal. O sintoma mais preocupante, e que confirmou o frostnip, veio depois. Quando o inchaço reduziu, percebi que não estava sentindo o dedão direito. Completamente dormente. Aí fui outra vez consultar os experientes, e me disseram que era comum e que provavelmente a sensibilidade começaria a voltar depois de um mês, e poderia demorar até seis meses pra voltar totalmente. E esse dedo vai ficar pra sempre mais sensível ao frio e mais suscetível a congelamentos de altitude...

Umas três semanas depois comecei a sentir formigamento e umas fincadas, e a sensibilidade foi voltando... Em dois meses estava praticamente normal, mas ainda sinto ele meio estranho às vezes. Ficou o aprendizado. Não sei dizer com certeza se o problema foi a bota dupla que não era quente o suficiente pro frio daquele dia, mas com certeza vou ficar mais atenta numa próxima vez. Aquele frio realmente não estava pra brincadeira, e o Andre também teve o frostnip, mesmo com a cautela dele de subir acelerado pra aquecer. Com exceção do pé inteiro inchado, ele teve os mesmos sintomas, mas inchou bastante só o dedo mais atingido, que depois ficou dormente pelo mesmo prazo que o meu. Ficaram duas lições: 1 - levar aquecedores químicos, inclusive uns pares extra pra se falharem; 2 – não é normal ficar sentindo os pés frios se estiver com calçado adequado. Se isso acontecer, faça algo pra resolver, volte, desista do cume... Não vale a pena arriscar. No meu caso foi só um frostnip, mas daí pra um frostbite não falta muito. Se estivesse mais frio, ou se o cume fosse mais acima, eu teria continuado, sem saber o risco que estava correndo.

Junho de 2017

Demorei pra escrever este relato, pela correria do dia a dia... e só terminei mais de cinco meses depois de descer da montanha. Tenho um problema quando conto ou relembro aventuras, e esse problema tem a ver com uma teoria que eu acredito: depois que passa um tempo, lembramos melhor das coisas boas que das coisas ruins. Não que a gente esqueça que coisas ruins aconteceram, mas o sentimento que tal coisa causou na época vai se esvaecendo com o tempo, e depois não parece que foi tão ruim assim. Já as lembranças boas continuam despertando as mesmas sensações, a euforia daqueles momentos e o brilho nos olhos ao lembrar. Bom, pelo menos pra mim é assim que acontece. Mas eu chamei de problema porque às vezes é importante lembrar também das partes ruins, principalmente na hora de planejar outra aventura. Eu sei que tiveram momentos no Aconcágua em que rolou aquele “o que eu tô fazendo aqui?”, ainda que momentâneo... E cá estou eu me equipando pra outra “diversão” em alta montanha em julho kk. Por causa dessa mania da minha memória de me enganar, logo que voltei do Aconcágua escrevi uns relatos soltos das “partes ruins” da expedição, pra não esquecer, ou do contrário este relato aqui pareceria um conto de fadas kkk. Lendo essas partes agora, mesmo não tendo passado tanto tempo, já não parece que foi tão ruim... já esqueci que algum momento foi difícil e sofrido. E se me perguntar agora, é capaz de eu dizer que subir o Aconcágua foi fácil e que faria tudo de novo sem pensar duas vezes! kkk Não foi fácil, mas faria de novo mesmo! :D :D

aconcagua sem guia parte 2 por vanessa m barbosa

@vanessa.mb88

Abaixo a lista de equipamentos

  • Barraca 4 estações (levei a azteq himalaya, seria ótimo uma mais leve e compacta, mas não foi ruim ter o conforto do espaço desta);
  • Saco de dormir de pelo menos -15°C conforto (eu fui com um Deuter -2 conforto; -8 conforto limite e -26 extremo, senti um pouco de frio em algumas noites, mas nada que me fizesse arrepender de ter levado esse saco, mas não é o recomendado!);
  • Fogareiro + isqueiro (fósforos umedecem e falham. O isqueiro funcionou bem em todos os acampamentos e temperaturas. Usei o fogareiro azteq spark, ultra leve. Pra derreter neve os modelos tipo jetboil são melhores, mas vi eles falharem pra acender e manter aceso algumas vezes);
  • Botas duplas boas (aluguei a koflac e tive início de congelamento nos dedos. Mas o frio tava mesmo demais naquele dia..);
  • SD de emergência alumínio (não usei, mas é importante);
  • Isolante térmico bom (pode ser de PE, pelo menos 1 cm de altura. Mas se precisar montar a barraca sobre o gelo/neve, o frio pode passar por ele. Infláveis são mais confortáveis mas tem risco de furar e são mais pesados);
  • Lanterna de cabeça + reserva (resistente a água);
  • Panela/talher/caneca de plástico;
  • Gás isobutano/propano, de rosca (5 cartuchos de 230g são suficientes, provavelmente vai sobrar. É recomendado o pequeno)
  • Garrafa térmica (muito útil, mas não completamente essencial)
  • 3 garrafas leves e resistentes para comportar no mínimo 3 litros de água
  • Capas térmicas de neoprene pras garrafas de água (de qualquer forma várias vezes tava tudo congelado de manhã, mas ajuda um pouco...);
  • Garrafa pra xixi (obs: a garrafa de gatorade costuma vazar!);
  • Duffel bag entre 80 e 120L (se for usar mulas até o acampamento base);
  • Bastão de caminhada (1 é suficiente);
  • Óculos de sol e goggles (os óculos precisam de proteção lateral (importantíssimo). Os meus não tinham e improvisei com silver tape. Funcionou bem. Não usei goggles, mas podem ser necessários dependendo da sensibilidade dos seus olhos, ou pra nevascas);
  • Crampons;
  • Gaiters/polainas;
  • Tapa ouvido para dormir (tem noites que o barulho do vento é muito forte);
  • Travesseiro inflável (pode improvisar com roupas);
  • Anorak;
  • Calça corta vento/impermeável;
  • Calça e blusa segunda pele;
  • Calça e blusa fleece;
  • Camada de aquecimento para dia do cume (eu usei um casaco de penas simples e um grosso de enchimento sintético);
  • Luva impermeável, luvas quentes e luvas que deem pra manusear objetos;
  • Mittens;
  • Balaclava;
  • Gorros de lã;
  • Meias;
  • Diamox (acetazalamida), Aspirina (ácido acetilsalicílico), Imodium (pra diarréia), Ibuprofeno;
  • Clorin (não usei);
  • Protetor solar fator alto;
  • Papel higiênico, desodorante, lenços umedecidos, álcool, etc.;
  • Manteiga de cacau (passei até no nariz quando começou a rachar do frio seco...não levei nenhum hidratante, mas é uma boa levar);
  • Escova/pasta de dente;
  • Micropore;
  • Soro fisiológico;
  • Colírio;
  • Câmera;
  • GPS (precaução. Se pegar um white out vai precisar);
  • Baterias e pilhas extra;
  • Chinelo até acampamento base (se for usar mulas. Se não for, é um peso que pode ser cortado);
  • Sacos para lixo, saco mais forte para recolher neve, sacos para manter coisas secas, sacos individuais para cocô, pra depois jogar no saco oficial do parque;
  • Boné;
  • Cors pra fixar mais a barraca (dependendo da barraca... A minha já tinha suficiente);
  • Aquecedores químicos de mãos e pés (pro dia do cume).

Ver parte 1: https://trilhandomontanhas.com/vanessa/aconcagua-sem-guia/

Trace sua rota até lá

Las Heras, Mendoza, Argentina
Las Heras, Mendoza, Argentina

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