Aconcágua (sem guia)

Ainda em 2015 decidi que tentaria chegar ao cume do Aconcágua, e que seria em dezembro de 2016. Queria fazê-lo da forma mais independente possível, sem contratar porteadores, guias e expedições pagas. O primeiro desafio foi encontrar companhia, porque a maioria dos meus amigos nem considera a possibilidade de entrar num projeto desses. Mas quando um amigo me surpreendeu dizendo que animava, o plano começou a tomar rumo. Ainda queríamos encontrar mais uma ou duas pessoas pra formar um grupo, e encontramos no mochileiros.com. Estava formada a equipe: eu, meu amigo Carlo, o Zaney e o Greison. 

O Aconcágua, com 6.962 m de altitude, é a montanha mais alta do mundo fora da Ásia. É também a segunda montanha mais proeminente do mundo, atrás apenas do Everest. Mesmo assim, por não exigir escalada técnica, alguns se referem à sua ascensão como um "trekking de altitude". Desde que seu cume foi alcançado pela primeira vez em 1897, mais de 130 pessoas morreram tentando chegar lá em cima. A temperatura no cume é geralmente por volta de -25° a -30° C, mas a sensação térmica cai facilmente abaixo de -50° C em dias de clima ruim, principalmente entre abril e novembro. Por isso, a ascensão é permitida nos meses próximos ao verão argentino, de meados de novembro até o começo de março, sendo a alta temporada centrada em janeiro. Nas últimas temporadas a taxa de cume tem sido entre 20% e 40% das tentativas. Mas com ou sem cume, é um lugar incrível. Em média, são necessários de 12 a 15 dias para alcançar o cume e descer (se vc tiver mais sorte que eu rs). As principais dificuldades desta montanha são o clima muito instável, com frio e vento extremos (principalmente no começo e fim de temporada) e, é claro, a altitude. Com a redução da pressão parcial de oxigênio no ar, podemos sentir não só fadiga e dificuldade pra respirar, mas também dores de cabeça, dor no estômago, tonturas, dificuldade pra comer e dormir, hemorragia nasal, inchaço nas extremidades e no rosto e diarreia. O metabolismo acelera muito, assim como os batimentos cardíacos. A desidratação é facilitada pela maior taxa de vapor de água perdida dos pulmões. Dependendo da pessoa, do ganho de altitude e da aclimatação, os sintomas podem evoluir para um edema pulmonar ou cerebral de alta altitude (HAPE ou HACE), situações mais graves que devem percebidas e tratadas logo.

Planejei começar o treinamento no primeiro dia de 2016. Porém, um dia antes, lesionei meu joelho em uma trilha. Precisava recuperar o joelho e também os tendões de aquiles dos dois pés, outro problema que já vinha de um tempo antes. O treinamento pro Aconcágua teve que esperar... e quando começou foi em ritmo lento. Fiz um raio-x e o médico pediu uma ressonância pra ver se precisava fazer cirurgia ou apenas repouso. Posterguei a ressonância e o repouso pra depois do Aconcágua rs. Tentei fortalecer os músculos das pernas pra poder começar o treinamento aeróbico sem piorar muito a lesão. Só faltando quatro meses pra viagem que deu pra começar algum treinamento aeróbico pra melhorar capacidade respiratória...comecei a correr, 5 km, uma ou duas vezes na semana, quando conseguia. Sabia que deveria ter treinado com peso nas costas e com inclinação... mas tinha que poupar o joelho. E a inclinação forçava os tendões dos pés, que ainda não estavam 100%. Então continuei fazendo o que dava.

Não pensei em desistir, mas tinha consciência de que com esses probleminhas a mais estaria assumindo riscos e dificuldades maiores. Somaram-se a isso os inúmeros desincentivos do tipo: “você deveria fazer várias montanhas acima de 6 mil antes de querer tentar o Aconcágua”; “sem guia?; “você devia pensar melhor antes de ir, gastar dinheiro e ter que desistir”; “Sem querer te desanimar, mas isso de ir sem guia me parece uma utopia”; “uma pessoa deveria tentar o Aconcágua depois de fazer, pelo menos, o Kilimanjaro e o Denali, necessariamente nesta ordem, pra ter chance de sucesso”; etc. Claro que esses "conselhos" nem sempre são pra desanimar, às vezes são pra te alertar, mas... às vezes o melhor é fingir que não ouviu/leu.

E continuei adquirindo equipamento, planejando a alimentação, estudando a montanha e montando o cronograma.

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Fim de tarde no acampamento base (Plaza de Mulas).

Em uma montanha dessas, dizem que 80% da força que você precisa é mental, e só 20% é força física (não leve tão ao pé da letra). Pra parte da força mental, experiência prévia conta.. bastante. Eu já tinha certa experiência em trekking longo, travessias, chuva, comida precária, carregar peso... etc. Mas o frio extremo do Aconcágua seria novidade. Ficar uns 15 dias sem tomar banho (19 no meu caso rs), também. E fazer xixi na garrafa... cocô no saquinho... E a altitude extrema. O mais alto que eu já havia chegado fazendo trilha era uns 4.600 m na Salkantay, em uma situação bem mais confortável que o ambiente agressivo do Aconcágua.

Surgiu uma promoção de passagens pra Lima, e decidi passar uma semana no fim de setembro na Cordillera Blanca, pra ganhar um pouco de experiência em gelo e maior altitude. Daria pra escrever um longo relato sobre essa outra aventura (seis dias na cordilheira fora de temporada, nenhuma estrutura de apoio, sozinha, carregando quase 20 kg durante os trekkings entre três e cinco mil metros de altitude... levei um tombo no segundo dia e fiz um “buraco” na minha canela, e continuei, com chuva, neve, frio, vento e paisagens surreais) mas por agora vou me ater a dizer que no último dia cheguei ao meu primeiro cume em alta montanha: Pisco, 5.752 m. O ataque ao cume começou às 00:20 e cheguei lá às 05:45, na expectativa de ver o sol nascer e presenciar umas vistas mais bonitas da cordilheira, já que esse nevado está bem no centro da cadeia. Mas a fama de que o clima nos Andes é instável não é sem motivo... No meio do caminho começou uma neve fraca, mas contínua, e tudo ficou branco pra todos os lados. Não deu pra enxergar nada. Mas a experiência foi válida. Vi que meu corpo respondeu bem à exposição a essa altitude. A aclimatação funcionou bem e não senti dor de cabeça com o ganho de mil metros de altitude em um só push no ataque ao cume. O único sintoma foi que depois da descida meus pés incharam e, como estava com minha bota no tamanho exato dos pés, eles ficaram meio apertados, e a falta de circulação fez surgir um hematoma bem roxo na lateral de um dos pés. Por isso comprei uma bota em tamanho maior pro Aconcágua, e tive cuidado também na escolha das botas duplas que usaria mais acima na montanha. Com base nesses dias de trekking em altitude, concluí também que o peso que teria que carregar seria um sofrimento. Em altitude, 20 quilos são DEMAIS pra mim. Esse seria um problema no Aconcágua, e precisei reduzir o peso que eu carregaria.

LOGÍSTICA

Comprei passagens pra Santiago, pois estava mais barato que ir direto pra Mendoza, cidade argentina onde são autorizadas e emitidas as permissões de ascenso ao Aconcágua. O trajeto de Santiago a Mendoza seria de ônibus pela famosa “Ruta 7”, assim como o retorno de Mendoza para a entrada do parque, que fica mais perto da fronteira com o Chile do que de Mendoza...

Desembarquei em Santiago no dia 8 de dezembro. Com a mochila cargueira nas costas, mochila pequena na frente, e arrastando a duffel bag gigante com o resto dos equipamentos de montanha, fiquei ainda me questionando se eu conseguiria levar tudo aquilo montanha acima, mesmo com a ajuda da mula até o acampamento base.

Na rota normal, a montanha tem um acampamento intermediário (Confluência 3.390 m), um acampamento base (Plaza de Mulas 4.370 m) e três acampamentos de altitude (camp 1: Plaza Canadá 5.050 m, camp 2: Nido de Condores 5.560 m e camp 3: Cólera 5.970 m). Há outros pontos onde é possível acampar, mas hoje em dia quase não são utilizados. Entre comida, roupa, barraca e equipamento técnico, as pessoas levam cerca de 40 kg para a expedição. Eu estava levando 30 kg. Para o trajeto até o acampamento base, cerca de 28 km, contratamos o serviço mínimo de mulas para carregar parte do peso. Com isso, se ganha direito a um alto desconto no custo da permissão de ascenso e, no meu caso, ganhei a capacidade de chegar ao acampamento base, carregando nas costas 17 kg (14 kg + 3 litros de água) em vez de 30. Esse peso era ainda mais de 30% do meu peso corporal, e, com os efeitos da altitude, não foi fácil chegar até lá. A partir de Plaza de Mulas, são realizados porteios: vc sobe um dia carregando parte do equipamento e desce pra dormir; no outro dia sobe definitivamente com o restante do peso. Esse processo é importante também pra aclimatar à altitude.

No dia 09/12 eu e Carlo fomos de Santiago pra Mendoza. O tempo previsto para o trajeto de ônibus já conta com umas 2 horas extra para a aduana. Se a aduana estiver vazia, o tempo de viagem será umas 6 horas, e não 8 horas como é informado. Tirando os contratempos como eu ter esquecido minha identidade no hostel e voltado às pressas pra buscar quase na hora do ônibus, ou o fato do ônibus ter atolado ao fazer um retorno na beira da estrada e termos perdido um tempão parados lá, chegamos bem em Mendoza. Greison já estava no hostel, e Zaney chegaria no dia seguinte.

No dia 10 de manhã fomos trocar moeda, contratar a mula e conseguir a permissão de ascensão. O procedimento é ir primeiro à secretaria de turismo preencher e imprimir os documentos e o boleto de pagamento; ir até um “pago fácil” pagar o boleto; depois ir à empresa contratar a mula e pegar um carimbo pra ter direito ao desconto; voltar à secretaria de turismo com o boleto pago e o carimbo da empresa de mulas. Aí eles emitem e te entregam a permissão. Parece que o melhor lugar pra trocar moeda em fins de semana é uma agência da Western Union que fica dentro de uma galeria. Fica aberta em horário que outras já estão fechadas, e a cotação era a mesma que estava sendo anunciada pelos cambistas de rua.

À tarde fomos alugar o equipamento que faltava (no meu caso as botas duplas e as mittens) e fazer compras. À noite passamos algumas horas organizando tudo pra levar. O cansaço do dia ficou por conta do calor e foi difícil pegar no sono... (Mendoza é muito quente no verão!)

No dia 11 pegamos o ônibus da Buttini na rodoviária de Mendoza para Los Penitentes (6 dólares), onde descemos para entregar à Lanko Expediciones as coisas que iriam na mula. Lá fomos recebidos por José. Pesaram as bolsas e nos entregaram um recibo. Nos passaram também os nomes do pessoal da Lanko que nos orientaria em Confluência e Plaza de Mulas, e em seguida José nos levou até o hostel El Nico, em Puente del Inca, que reservamos pra passar aquela noite. Puente del Inca é um povoado que fica bem próximo à entrada do parque. Chegamos ao hostel antes das 16 horas. Tudo preparado para no dia seguinte começar o percurso de aproximação. José nos buscaria no hostel e levaria até a entrada do parque, nos esperaria passar pela portaria e em seguida nos levaria ainda até o começo da trilha, na segunda portaria (essa mordomia é “brinde” pra quem contrata mula). Iríamos até o acampamento Confluência, onde passaríamos uma noite, e no outro dia o longo percurso até o acampamento base. O plano inicial era passar duas noites em Confluência, e fazer uma caminhada de aclimatação até o mirante da face sul, sentido Plaza Francia. Porém, o dono do hostel, Cesar, nos aconselhou a não ficar mais que o mínimo necessário em Confluência, por causa da alta concentração de magnésio na água disponível lá (magnésio não necessariamente faz mal, mas pode causar diarreia, o que pode ser um grande problema em altitude). Seguimos o conselho.

Puente del Inca está a pouco mais de 2.700 m de altitude, e aí já se inicia o processo de aclimatação. Antes de encerrarmos o dia, fizemos uma caminhada de 1,5 km até o cemitério dos andinistas. É triste e emocionante ver as homenagens deixadas ali aos montanhistas.

aconcagua sem guia por vanessa m barbosa"Lo que se puede deveras es tan poco, que hay que hacerlo una vez aunque sea; subir una montaña, aunque subir cueste, aunque la cuesta sea pesada, aunque respirar cueste... porque respirar se acaba" (mensagem grafada em uma das lápides).

Voltando ao hostel, descobrimos que o Zaney estava com uma infecção aguda no pé, e que, segundo Cesar, não o deixariam subir a montanha daquele jeito. Diante disso, Cesar o levou ao hospital mais próximo em Uspallata. Enquanto isso, preocupados, tentamos pensar em um plano B caso ele tivesse que desistir e nós tivéssemos que seguir em um trio em vez de duas duplas. Eles retornaram no meio da madrugada e no dia seguinte Zaney estava melhor (ufa!), mas ainda precisaria de repouso e de tempo para os antibióticos fazerem efeito. Decidimos seguir e aguardá-lo em Confluência, pra irmos nos aclimatando e não gastar mais uma noite de hostel. Foi uma boa decisão, pois o Zaney era bem mais forte que nós e no dia seguinte conseguiu fazer direto o trajeto de Horcones até Plaza de Mulas, que nós dividimos em dois dias.

No dia 12 de dezembro, aproveitamos a manhã pra nos alimentar bem e hidratar bastante, e tomar o último banho. Jose nos buscou às 11 hs pra nos levar ao parque, como combinado, e às 11:30 já havíamos passado pelos procedimentos na portaria e estávamos começando a trilha. O trajeto até Confluência foi tranquilo, nenhum perrengue. Chegando lá estava ventando muito e tivemos que montar as barracas com dois segurando pra não voar enquanto o outro fazia o trabalho. O sol se pôs depois de 20:30, e ainda continuou claro por bastante tempo. Linda noite de lua cheia com o céu muito estrelado. Dormimos bem, e acordamos cedo pra desmontar acampamento e ficar torcendo pro Zaney chegar e estar bem. Quando ele chegou, por volta das 11:15, descansou alguns minutos e já íamos seguindo, mas fomos chamados pelos guarda-parques. Eles nos informaram que não deveríamos sair tão tarde, já que o trekking até Plaza de Mulas poderia levar até 10 hs, e que, se anoitecesse, eles teriam que mandar uma equipe de resgate porque o risco de hipotermia naquele trajeto era alto com o clima que estava fazendo. Decididos a seguir, tivemos que assinar um termo de responsabilidade. Se a gente não chegasse antes de anoitecer, além de sermos expulsos do parque e de entrarmos na lista negra, teríamos que arcar com os altos custos de um resgate desnecessário.

Corrida contra o sol

Saindo de Confluência tem uma descida pra atravessar a ponte pro outro lado do rio Horcones, e logo em seguida começa uma subida chata onde dá pra sentir bem o baque da altitude. Depois, a maior parte do caminho é mais ou menos plana, porém não fácil, pois é uma área totalmente exposta, sem proteção contra vento e sol, o terreno cheio de pedras e algumas partes com lama. No longo trecho chamado de “Playa Ancha”, tivemos que cruzar o rio Horcones várias vezes, perdendo tempo para achar o melhor lugar pra saltar sem se molhar. E a mochila vai pesando mais... e as horas vão passando... Em certo momento, o cansaço começou a falar mais alto e eu estava ficando bastante lenta, mas não podia parar... fiquei preocupada. Não queria atrasar o time e tínhamos que chegar, não havia opção. Combinamos um plano B: se a gente percebesse que não ia dar tempo de chegar antes de anoitecer, os dois que estivessem mais rápidos avançariam pra avisar aos guarda-parques que estávamos chegando, ou, em último caso, avisar que tivemos que acampar no caminho, mas que estávamos bem, tínhamos tudo que precisávamos pra passar a noite e que não era necessário resgate. Comendo uns sachês de açúcar e umas barrinhas, comecei a recuperar a força e seguir mais rápido. Quando chegamos ao marco conhecido como Ibanez, tinha uma placa com uma seta indicando para seguir à direita, mas estava caída no chão de forma que parecia indicar a esquerda, e seguimos à esquerda sem pensar. Depois de avançar talvez uma hora nesse caminho, percebemos que estava estranho e olhei nossa localização no tracklog que salvei no celular. A trilha correta estava paralela a nós, à direita, mas do outro lado de uma parede. Por sorte, um pouco à frente tinha uma parte menos inclinada, coberta de gelo/neve, por onde conseguimos subir e atravessar. E do outro lado estava a trilha. Nesse momento encontramos Philipp, um alemão que vinha sozinho. Ele havia saído de Confluência bem antes de nós, mas estava carregando muito peso (uns 40 kg), pois não havia contratado mula. Vendo que com aquele peso não conseguiria chegar a tempo, deixou parte dos equipamentos escondidos em Ibanez pra seguir mais leve. Não sei se teríamos nos encontrado se a gente não tivesse errado o caminho... Então esse foi nosso melhor erro, porque acabamos nos tornando amigos de montanha.

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Philipp estava muito cansado e já pensando em acampar quando chegasse no lugar onde ficava um antigo refúgio destruído, antes da “costa brava”, trecho de subida íngreme quase chegando a Plaza de Mulas. Seguimos juntos e insistimos que ele conseguiria chegar, chegaríamos juntos. Quando chegamos próximo ao local onde Philipp pretendia acampar, não era como pensamos. O local era completamente exposto. Nessa hora o sol já estava entrando atrás das montanhas, e a temperatura começou a cair muito rápido. Carlo estava cansado e sentindo muito a altitude, começou a ficar muito lento. Zaney e Greison seguiram na frente (plano B), enquanto eu fiquei atrás com Carlo e Philipp. Não tínhamos certeza de quanto faltava, mas à frente havia uma subida íngreme que parecia ser a “costa brava”, trecho final. Seguimos em passo muito lento. Philipp ainda deixou suas botas duplas escondidas por ali pra seguir mais leve. Estava ficando muito frio. Eu estava com medo de ainda faltar muito pra chegar. O GPS mostrava que estava perto... mas em altitude e com muita inclinação as distâncias enganam. Não tinha como parar e acampar ali. O jeito era seguir. Algum tempo depois (talvez uma hora? ou duas?) avistei o acampamento, mas ainda faltava um trecho pra chegar. Fiquei mais tranquila. Chegamos às 21:15, ainda com um finalzinho de luz. Os guarda-parques estavam nos aguardando. Pensei que levaríamos uma bronca, mas ficaram aliviados por termos chegado, nos deram boas vindas, ofereceram uns biscoitos e disseram que podíamos ir montar nossas barracas e deixar pra fazer o check-in na manhã seguinte.

Plaza de Mulas, a 4.370 metros de altitude, é o segundo maior acampamento base do mundo. Aqui ainda temos “banheiros” e água “encanada” (na verdade a água fica em galões onde podemos pegar com canecas, e geralmente está parcialmente congelada durante a baixa/média temporada, período em que fui). Os banheiros são latrinas, uma estrutura de metal de 1 m² com um buraco largo no meio por onde os dejetos caem em um grande recipiente tubular, que quando cheio é carregado de helicóptero pra fora do parque. Não é agradável de utilizar, principalmente quando o chão está coberto de gelo e há o risco de escorregar e cair no buraco haha. Mas não dá pra reclamar..

O primeiro dia aqui foi de descanso. O corpo precisa recuperar a energia gasta no longo dia anterior e aclimatar à falta de oxigênio que já é bem notável nessa altitude. Qualquer atividade simples como sair da barraca e estender seu saco de dormir ao sol já pode te deixar ofegante. Buscar água e ir ao banheiro então... Aqui já precisamos beber no mínimo quatro a cinco litros de água por dia, e isso significa fazer xixi toda hora, inclusive no meio da noite, com aquela temperatura super “agradável” por volta de -5° C nos dias normais. Apesar de chato, fazer muito xixi é um dos sinais de que a aclimatação está funcionando, e não fazer é um sinal de que algo vai mal.

Sendo ainda a média temporada, o acampamento estava relativamente vazio. As grandes expedições começam a chegar no fim de dezembro e ao longo de janeiro, quando há maior chance de "sucesso". À tarde fomos fazer o check-in e passamos na tenda médica pra avaliação obrigatória. O grupo estava bem. Minha saturação de oxigênio no sangue estava 91%. Meus olhos estavam vermelhos, e a médica reprovou meus óculos pela falta de proteção lateral, e ressaltou o risco de danos à retina por causa do reflexo do sol na neve e o risco de “cegueira de altitude”. Resolvi isso vedando as laterais com silver tape, o que funcionou bem.

Na noite seguinte, dormi surpreendentemente bem, apesar de já estar com o nariz entupido e sangrando, machucado por dentro por causa do ar tão seco. Carlo dormiu mal e amanheceu se sentindo doente, e dizendo que não poderia continuar. O plano para aquele dia era fazermos o primeiro “porteio”: levar parte do equipamento para o acampamento Canadá, e voltar para dormir na base. Carlo decidiu que iria desistir da expedição :( , mas tentaria subir até Canadá. Preparamos tudo e começamos o primeiro trecho, mas logo no começo Carlo decidiu voltar. Esse trajeto tem cerca de 3,5 km, e tempo médio (com peso) de 4 h. O terreno é um tanto íngreme e a falta de oxigênio faz com que tenhamos que subir a passos lentos pra conseguir respirar normalmente. Gastamos pouco mais de três horas pra chegar lá. Quando estava faltando cerca de meia hora, Greison estava um pouco mais lento atrás, e fez sinal para o Zaney dizendo que não ia continuar. De onde estava ele desceu, e nós seguimos para deixar as coisas que carregamos lá em cima. O tempo havia fechado, tudo encoberto de nuvens escuras. Descansamos por uns quinze minutos enquanto deixamos os equipamentos, comemos uns biscoitos, hidratamos e iniciamos a descida. Começou a trovejar. Parecia que ia chover forte em breve. Chover? Acho que não chove com aquela temperatura. Começaria a nevar. Descemos correndo e acho que gastamos pouco mais de uma hora pra chegar. A neve começou a cair, mas veio bem fraquinha, e passou rápido. Na verdade pedrinhas de gotas de chuva congeladas.

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De volta a Plaza de Mulas, fomos conversar com nossos parceiros, que nessa hora já estavam decididos a encerrar ali o projeto Aconcágua :'( . No dia seguinte, dia 16, eu e Zaney subiríamos definitivamente para o acampamento Canadá, e os dois ficariam em Plaza de Mulas e se preparariam para fazer o caminho de volta no dia 17. Deixamos então a minha barraca no acampamento base para os dois, e eles a deixariam lá montada para quando nós fôssemos descer de volta. Levamos pra cima a barraca do Zaney, que dividiríamos até o dia do cume.

Camp 1: Plaza Canadá

No dia 16, então, o grupo se dividiu, e eu subi com o Zaney para o primeiro acampamento superior: Canadá. Acabou sobrando muito mais peso pra carregar nesse dia. Apesar de mais aclimatados, cada passo foi um sofrimento. Fiquei contente em ver que ainda assim gastamos três horas e meia, abaixo do tempo médio. Estávamos agora a 5.050 m de altitude. O tempo estava bom, bastante frio, mas céu limpo. Montamos a barraca antes que começasse a ficar mais frio. Os espeques da barraca realmente não servem de nada lá (seguimos a dica do Fred e nem levamos). O jeito é pegar pedras grandes e amarrar nelas os cors da barraca. Nesse dia, quando levantei uma das pedras para passar o cor, deixei cair em cima da minha outra mão, amassando a unha do polegar que sangrou por dentro e ficou metade preta (que dor!).

A gente precisava beber água, e também precisava de água pra cozinhar. Era hora de derreter neve/gelo pela primeira vez! (a única fonte de água dali pra cima é neve). Precisava buscar a neve um pouco longe de onde ficam as barracas, pra evitar contaminação. Por sorte, um grupo que havia deixado o acampamento naquele dia deixou um saco cheio de neve que sobrou. Pensei que estaria livre do serviço de coletar neve naquele acampamento, mas nãaao. Porque um montão de neve vira só um pouquinho de água, e na manhã seguinte aquela neve acabou... A outra surpresa foi o quanto demora pra derreter. Fazer água gasta tempo e paciência. Depois de derretida, beber também é difícil. E se não tomar cuidado ela vai congelar de novo na garrafa antes de você beber. E em seguida você já está jogando essa água fora pelo xixi. E esse ciclo de “busca neve/derrete/bebe/faz xixi” foi pra mim a parte mais difícil da jornada. E não teve um dia em que eu não desejei ser homem pra simplificar a última parte do processo. Eu não sei se era pior fazer xixi fora ou dentro da barraca (sim! tinha que fazer xixi dentro da barraca! Tinha horas que simplesmente não dava pra sair, por causa de vento/frio/neve). Pra fazer fora tinha que calçar as botas, ir até algum local semiprotegido pra ter um pouco de privacidade, aguentar o frio, e brigar com o vento que ia tentar fazer seu xixi voar pra todos os lados haha. Pra fazer dentro da barraca tinha que ignorar a presença do coleguinha e usar a “garrafa do xixi” e, no meu caso, um adaptador, tipo um funil kkk. A garrafa geralmente enchia com dois xixis, e aí vinha a última tarefa, que era sair pra esvaziar a garrafa. Essa tarefa não era tão fácil quando amanhecia congelado de manhã. Aí tinha que deixar no sol pra derreter e depois esvaziar kkkkkk. Sentiu o drama do processo? E a pergunta que todo mundo faz é: “e o n° 2?? Como faz??” Pois é... No acampamento base tem as latrinas. A partir de lá não tem mais. E não pode fazer no chão e enterrar, porque naquela altitude não ocorre decomposição, por causa do frio e da falta de bactérias. A sua sujeira ficaria eternamente lá, congelando e descongelado. Então os guarda-parques te entregam no início um saco vermelho, e é nele que você deve fazer o nº 2 nos acampamentos superiores. E tem que devolver na saída, se não, é multa de cerca de 200 dólares. Pra não ter que ficar carregando o cocô com a gente o tempo todo, levamos sacos extra, fazíamos neles e deixávamos “guardados” do lado de fora da barraca, protegidos por pedras. Quando subimos pra outros acampamentos, deixamos esses saquinhos lá, e na volta recolhemos todos e colocamos no saco vermelho pra entregar aos guarda-parques no check out. Sorte que seu corpo está desesperado por comida, então absorve quase tudo que entra e quase nada sai rs.

Maaas, nem tudo é sofrimento, e a beleza estonteante daquele lugar compensava tudo. A paisagem ainda ficaria mais mágica a cada ganho de altitude, mas ali já era espetacular. À nossa frente um monte de picos a perder de vista. Atrás estava a rochosa face oeste do Aconcágua, o sol nascia atrás dela e se punha à nossa frente, fazendo um show de cores no horizonte entre nove e dez horas da noite. Sim, os dias são longos lá.

Nessa primeira noite no camp 1 ventou muito e fez muito frio. Zaney sentiu dores de cabeça, e eu quase não dormi. Eu estava com muita dor no nariz e garganta, ambos machucados e inflamados. Só conseguia respirar pela boca, o que, além de dificultar a oxigenação, aumenta a desidratação, porque perdemos mais água expirando pela boca do que pelo nariz, e o ressecamento e inflamação da garganta e nariz aumentavam também. Tentando reduzir a dor de inspirar o ar gelado, eu tentava respirar dentro do saco de dormir ou da balaclava, mas aí aumentava a falta de oxigênio, me fazendo arfar por ar toda hora. Isso virou rotina, fazendo de várias noites um inferno. E quando começava a pegar no sono..., tinha que fazer xixi kkkk.

Decidimos que o dia seguinte seria de descanso.

Além de nós, tinha apenas um grupo de quatro russos no acampamento, e à tarde chegaria o Philipp. Os que estavam ali antes de nós haviam seguido pro camp 2 pra tentar o cume na próxima “janela”, que seria dia 19. Depois disso a previsão era de tempo muito ruim por pelo menos cinco dias. Esse era o dia 17. De acordo com o nosso cronograma, tudo correndo perfeitamente bem, (e se não fosse o mau tempo previsto) só poderíamos tentar o cume no dia 21, e isso saindo do camp 2 e não do camp 3! Dia 19 era cedo demais pra gente. Mas as horas foram passando e a vontade de poder usar essa janela foi crescendo, até que resolvemos arriscar!! Já passavam das 14 hs. Teríamos que subir nesse mesmo dia, carregando tudo de uma vez pro camp 2, mas levando menos comida e gás porque seriam só dois dias. Dormiríamos uma noite lá, e na outra madrugada tentaríamos o cume. Se desse errado, voltaríamos pra Canadá. O plano era audacioso e arriscado, porque a gente já tinha acelerado o cronograma nos dias anteriores, não estávamos aclimatados a essa altitude e nem tínhamos dormido bem. Mas seria uma tentativa. Juntamos o equipamento, a comida necessária pra dois dias, guardamos saco de dormir, calçamos as botas duplas e só faltava desmontar a barraca....quando um montanhista que estava descendo questionou nosso plano: “vocês estão subindo pra Nido AGORA?”. Achei que ele estava se referindo a estar um pouco tarde, e expliquei o motivo, e disse que estávamos seguros de conseguir chegar antes de anoitecer. E então ele me interrompeu: “Não... Me refiro ao clima, os ventos estão aumentando e vai ser arriscado subir, já está muito frio no trajeto e vai piorar”. Agradecemos o conselho e, sem trocar palavras, concordamos em ficar. Cabisbaixos, voltamos as mochilas pra dentro da barraca, resignados a esperar pela próxima janela de tempo bom...

Agora a gente estava à mercê do clima... O jeito era aproveitar os próximos dois dias de bom tempo pra aclimatar ali em Canadá e fazer porteio até o camp 2, e seguir acompanhando a previsão do tempo pra ver se algo mudaria. Não tínhamos internet nem rádio, mas sempre passava alguém com notícias, algum guia, guarda-parque, ou algum montanhista subindo do acampamento base ou descendo do camp 2 (lá também tem uma tenda de guarda-parques). Os Andes (especialmente o Aconcágua) têm a fama de clima instável e imprevisível, o que veio a se confirmar na semana seguinte, dificultando nosso planejamento.

Amanheceu um dia lindo e gelado (18 de dezembro). Esperamos até o sol sair de trás da montanha e bater nas barracas, pra esquentar um pouco antes de nos prepararmos pro porteio. Philipp subiu com a gente. Nesse dia ele estava carregando mais peso e por isso foi mais lento. Fui parando às vezes pra esperar e não ficar muito distante. De repente vimos que o Zaney, que estava à frente, parou e estava abaixado sem sair do lugar. Acelerei pra ver o que tinha acontecido. À frente dele tinha uns três metros de gelo duro, liso, completamente escorregadio. Aquele trecho tinha menos de 30 graus de inclinação, mas suficiente pra que um escorregão mandasse a gente umas dezenas de metros pra baixo. A gente tinha subido sem os crampons, mas mesmo com eles estaria arriscado atravessar aquele trechinho. Zaney estava fincando o gelo com o bastão pra tentar deixar firme pra pisar. Philipp nos alcançou e ele estava com sua piqueta, o que facilitou o trabalho. Mesmo assim o Zaney tava com dificuldade pra atravessar, não se sentia seguro nesse terreno... então evitaríamos esse caminho na volta e no dia de subir novamente. Philipp atravessou na frente e o ajudou. Eu fui em seguida. Mais à frente tinha outro trecho assim. Atravessei rápido sem pensar. Philipp e Zaney desviaram por outro caminho mais acima. Em seguida vi que eu deveria ter feito o mesmo, pois ainda tinha um último trecho daquele jeito e esse era mais íngreme, e eu não conseguiria voltar pelo caminho que tinha acabado de passar. Consegui passar uma parte e parei sem saber como continuar. Mas Philipp já estava do outro lado e me estendeu seus bastões pra que eu tivesse algum apoio, e assim consegui. Continuamos tranquilamente, fazendo o caminho mais direto. Ao chegar em Nido de Condores estava frio DEMAIS. Corremos (correr é só modo de dizer, não dá pra correr naquela altitude) para a tenda dos guarda-parques pra perguntar onde era mais seguro deixar nossas coisas. Na verdade foi mais uma desculpa pra entrar na tenda quentinha deles por uns minutos. Enquanto isso vesti mais um casaco e as luvas mittens.

Despejamos nossas coisas em um saco impermeável e colocamos ao lado de uma pedra grande. A vista a partir daquele acampamento é incrível, mas tava frio demais pra ficar parados admirando. Até tentamos... sentamos atrás de uma outra pedra que parecia proteger dos ventos...mas não adiantou... Muito vento. Muito frio. Partimos de volta ao acampamento Canadá, tentando fazer o caminho mais direto e rápido pra escapar do frio. Nesse trajeto a neve estava fofa e algumas vezes afundei a perna até quase no joelho. Como eu não estava usando os gaiters, entrou neve dentro das botas duplas.. Ainda bem que tinha sol, e coloquei os liners pra secar quando chegamos ao acampamento. E depois da rotina de derreter neve, cozinhar, comer, hidratar... fomos dormir.

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Por do sol iluminando a parede oeste.

Dia 19 de dezembro. Dia de cume. Não para nós. Mas mais de 50 sortudos estavam na noite anterior no último acampamento superior, Cólera, prontos para tentar o cume nesse dia, que foi o melhor da média temporada, quase sem vento, temperaturas muito favoráveis, nenhuma nuvem no céu. No nosso caso, como não adiantava correr com o cronograma, pois de qualquer forma não dava pra subir pro cume tão cedo, decidimos descansar mais esse dia. Fomos orientados a dormir uma ou duas noites em Nido de Condores para aclimatação, e depois descer de volta pra Plaza de Mulas, e esperar lá até a próxima janela de tempo bom. Não havia muita opção. Então, no dia seguinte subiríamos pra Nido com esse novo plano.

Outro alemão que também estava subindo solo, o Andre, chegou a Canadá naquela tarde, montou acampamento e continuou subindo para aclimatação. Foi até o acampamento Cólera e voltou, com uma velocidade impressionante.

Nesse dia o clima estava agradável. Recebemos até visita de uma raposinha andina e do gigantesco condor andino, que depois de muito sobrevoar a área resolveu pousar e tentou roubar um salame que o paulista Victor tinha deixado escondido debaixo de umas pedras no acampamento enquanto subia rumo ao cume. Dizem que avistar um condor andino é um grande sinal de sorte :D.

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Por do sol no acampamento Canada no dia 19. Foto às 20h50m.

Camp 2 – Nido de Cóndores

No dia 20 levantamos acampamento e subimos para Nido de Condores, eu, Zaney, Philipp e Andre. Andre era o mais rápido e logo estava bem distante à frente, seguido por Zaney e Philipp, e eu fiquei mais atrás. O trajeto foi tranquilo, bastante frio e ventando um pouco, mas não foi muito sofrido. No trecho final Zaney começou a sentir muita fraqueza e eu o alcancei. Entreguei um chocolate pra ele recobrar as forças e seguimos devagar. Quando enfim chegamos, Andre e Philipp já tinham encontrado um local para suas barracas, que eram menores e menos resistentes aos ventos, então precisavam de um local mais protegido. Nido de Condores é um acampamento muito exposto, então eles tiveram que descer até um lugar um pouco afastado. Como a gente ia deixar a barraca lá montada quando fôssemos descer de volta a Plaza de Mulas, também precisávamos de um local seguro. A previsão para os próximos dias de tempo ruim era de ventos de até 100 km/h em Nido de Condores, e 150 km/h no cume!

Armamos a barraca um pouco abaixo da tenda dos guarda-parques, ao lado de duas grandes rochas, em um espaço estreito cercado dos outros lados por uma descida íngreme e por uma pequena parede de neve. Tivemos que escavar um pouco essa parede de neve pra caber a barraca. Saí à procura de pedras grandes pra fixar a barraca. Não foi fácil descer com as pedras. Maldita falta de oxigênio. Assim que terminamos, Zaney entrou na barraca e disse que não queria mais se mexer kkk. Eu precisava beber água, então fui iniciar o trabalho de pegar neve pra derreter, antes que o frio aumentasse demais. Já estava aumentando. O frio e o vento.

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Vista da porta da barraca em Nido de Condores, às 21 horas do dia 20 de dez.

Ao fim do processo já estava escurecendo. Mais um espetáculo no céu. Esses pores do sol não vão sair fácil das minhas lembranças.

Essa noite não foi das melhores. Muito difícil de respirar, extremamente frio (uns -20°C), e o vento sacudindo a barraca a noite inteira.

Pela manhã (dia 21) o vento ainda ficou mais forte. Por volta das onze horas criei coragem de subir até os guarda-parques para checar o prognóstico do tempo para os próximos dias. Havia piorado. “Vocês podem dormir mais uma noite aqui, mas amanhã todos descem pra Plaza de Mulas. Muito perigoso. Reforcem mais a barraca, coloquem pedras grandes do lado de dentro. Os ventos serão muito fortes”. Passamos o dia praticamente sem sair da barraca, a não ser pra pegar neve pra fazer água. Ventania o dia todo.

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Vista da porta da barraca na tarde do dia 21 de dez.

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Não importava quão ruim estava o clima, a vista era sempre impressionante.

E na manhã seguinte nos preparamos pra descer os quase 1.200 m verticais que havíamos subido desde o acampamento base.

Saímos por volta das 11:00, com frio e vento piores que no dia anterior. Optamos por deixar as pesadas botas duplas lá em cima, e desci com minhas botas de trekking normais e os gaiters. Tínhamos que descer rápido, nos manter em movimento pra circulação do sangue manter os pés e mãos quentes. Logo no começo da descida veio uma rajada mais forte de vento e me jogou de bunda no chão. Poderia ter sido engraçado de ver. Mas a sensação foi de muita impotência e fragilidade.. fiquei lá no chão uns segundos indignada por ter sido derrubada por um “ventinho” kkkk. Levantei e acelerei pra alcançar o Zaney. Tínhamos que passar pelo acampamento Canadá pra pegar umas coisas que a gente tinha deixado lá, inclusive os saquinhos de cocô. Aproximando de lá, veio um vento branco jogando um monte de neve e gelo com muita força em cima de nós. Era um trecho meio íngreme e tivemos que deitar no chão pra firmar. Frio, frio, frio. Continuamos. Chegando no acampamento Canadá os pés do Zaney estavam começando a congelar. Ele teve que tirar as botas e esfregar os dedos pra fazer a circulação voltar. Enquanto isso as minhas mãos estavam doendo muito de frio e eu tentava pegar algo pra comer e não conseguia. “Pára vento, pára um pouco! pára vento...” era o meu único pensamento. Acho que eu repetia isso em voz alta também, como se o vento fosse me ouvir. E ouviu. Mas só por uns dois minutos, suficientes pra gente conseguir colocar as coisas nas mochilas. Tentei beber água. Estava quase completamente congelada, só saiu um gole. Forcei pra dentro uma barrinha de cereal congelada e voltamos à descida.

O vento começou a amenizar nesse segundo trecho. Zaney quis pegar um atalho que na verdade não dava em nenhuma trilha. Pra não ter que voltar atrás, optamos por atravessar uma parte de gelo liso pra alcançar um outro caminho mais à frente. Escorregamos sentados por uns seis metros. Também poderia ter sido divertido, se eu não tivesse cortado a mão tentando frear no gelo. Mas voltamos ao caminho e seguimos. Ali os ventos já estavam mais calmos..

De volta a Plaza de Mulas – Lar Doce Lar

Chegamos exaustos. Eu estava completamente sem energia.... Precisava comer. Mas antes tínhamos um trabalho a fazer. A barraca, que estava lá sozinha há 6 dias, havia sido empurrada com os ventos da noite anterior, e um monte de pedras grandes rolaram pra debaixo dela, que ficou toda entortada inclinada pra frente. Quando Carlo e Greison saíram pra ir embora, deixaram a bolsa com o nosso estoque de comida e gás dentro da barraca, e o vento foi forte o suficiente pra levantar a barraca mesmo assim, empurrando a bolsa pra uma das pontas. Pensei que a estrutura da barraca tivesse quebrado, mas não. Depois de cerca de uma hora removendo pedras, recolhendo as coisas esparramadas dentro e fora da barraca e reforçando a segurança da barraca pros ventos que viriam, fui fazer meu almoço, feliz de não precisar derreter neve! Poder pegar água no galão, poder lavar as mãos e jogar água no rosto, mesmo em temperatura congelante, era muito bom! Era bom voltar a ter "banheiro" também, e um pouco mais de oxigênio! Era como voltar pra casa.

Philipp e Andre chegaram em seguida. Philipp deixou a barraca dele lá em cima, e iria dormir com a gente nesses dias em Plaza de Mulas. A previsão era de que poderíamos subir novamente no dia 26. Mas estava mudando toda hora... Em um momento o prognóstico mostrava que o único dia possível pra fazer o cume era dia 28, depois era dia 27, depois era dia 29, depois era 27 ou 29. E foi dando medo de mudar pra dia 30, ou de simplesmente não ter essa janela. Dia 29 era nossa última chance, ainda assim muito apertada, porque teríamos que descer no mesmo dia do cume todo o caminho até o acampamento base (a maioria das pessoas descansa uma noite no último acampamento superior ou em Nido antes de descer). O voo do Philipp de volta pra Alemanha saía de Mendoza no dia 31 de manhã. Eu ainda poderia ficar mais 1 ou 2 dias, mas nesse ponto combinamos que iríamos sair juntos, com cume ou sem cume, e assim podíamos dividir nossa mula com os dois. O certo era que não dava pra subir antes do dia 26. Nevasca, vento branco e frio perigoso.

Em três na barraca, começamos a ter mais problema com condensação. O vento batia a noite sacudindo a barraca e o gelo formado no tecido caía por cima dos sacos de dormir. Às vezes no rosto, às vezes dentro da garganta, com a boca aberta pra respirar. Com o frio e a ventania, a gente ficava o dia todo dentro da barraca conversando. Apesar do tédio, lembro de muita risada... A nossa única obrigação diária era caminhar até a tenda dos guarda-parques pra checar as mudanças na previsão do tempo e nos programar. Nesses dias não dava pra cozinhar dentro da barraca, por causa da condensação, e de fora era impossível também com aquele vento. Começamos a usar a barraca domo (aquelas tendas grandes em formato hexagonal pra uso comunitário), apesar de que a regra era não cozinhar lá dentro, apenas comer. Mas não tínhamos muita escolha. Nós quatro (Andre também) começamos a levar o almoço e o jantar e passar o dia lá dentro. Um dos problemas de cozinhar lá era que também tinha condensação, e de repente começava a chover gelo derretido nas nossas cabeças.

Em uma dessas tardes conhecemos Ravi, um experiente guia de montanha malasiano que havia perdido 8 dedos das mãos por frostbite no Everest, no mesmo dia em que morreu o montanhista e escalador brasileiro, Vitor Negrete. Ouvir suas histórias faz crescer nosso respeito pelas montanhas. Um grupo de russos (na verdade eram da Letônia), três homens e uma mulher, estavam sempre na tenda comunitária também. Até dormiram lá dentro uma noite que o vento tinha rasgado a barraca deles. Eram muito fortes e não muito sociáveis, com exceção de um deles, Alex, que conversou mais vezes conosco, em um sotaque muito engraçado. Coincidentemente, nossa barraca em Nido estava montada ao lado da deles, que era um modelo fraco (e remendada depois de ter rasgado com o vento), e por isso precisaram colocá-la no único local do acampamento onde ela teria proteção por quase todos os lados. Era quase uma muralha de pedras com a barraca deles no meio. A nossa estava de fora da “muralha”, mas usando sua proteção lateral.

No dia 23 nós só descansamos. No dia 24, Andre subiu até o cume do Cerro Bonete, sozinho, pois optamos por continuar poupando forças. Eu queria muito ter ido também, mas eu já tinha perdido toda a minha (pouca) camada de gordura e massa muscular, e estava difícil comer mais calorias do que a gente estava gastando, mesmo parados. Então realmente pensei que a melhor opção era me poupar para nossa longa subida final, que iniciaria nos próximos dias. Depois me arrependi de não ter ido, claro... 

Natal

Na manhã do dia 24 os porteadores nos convidaram pra uma festinha que teria à noite na tenda verde, organizada pela galera que trabalha na montanha. Disseram que não seria nada grande, porque eles trabalhariam no dia seguinte. E que no réveillon a festa seria maior... Passamos o dia falando de comidas de natal, famintos por algo suculento, por comida de verdade, depois de duas semanas com alimentação precária. Chegando na festinha à noite, tinha uma mesa cheia de delícias pra todos comerem à vontade, pra nossa surpresa. Pena que a gente tinha enchido a barriga antes de ir pra lá, pensando que não teria nada rs. De repente entraram carregando a árvore de natal: um bloco enorme de gelo em formato de árvore. Em seguida encheram a “árvore” de luzes fluorescentes piscantes. Tava frio demais, mesmo dentro da tenda, e resolveram colocar a árvore do lado de fora...mas minutos depois o vento a derrubou e quebrou no meio haha. E foi chegando mais e mais gente na “festinha” até que não tinha mais espaço. Retiraram as mesas de comida e puxaram a caixa de som para o meio e a festa durou até umas quatro horas da manhã, regada a fernet com coca-cola e muito calor humano. Estavam lá os porters e demais pessoas que trabalham lá, alguns guias, alguns poucos montanhistas independentes, e nós. Quem estava em expedições pagas, teve algum tipo de celebração com suas respectivas empresas, e foram dormir cedo (ou tentar dormir, porque no dia seguinte tinha gente reclamando do barulho da nossa festa rs). Alguns guias da Mountain Madness estavam lá, e perguntamos se no acampamento base do Everest também havia festas assim. Disseram que “assim só aqui no Aconcágua”. As rajadas de vento pareciam que iam derrubar a tenda, e a cada rajada mais forte todos ajudavam a segurar o teto, com muita risada... Fiquei pensando se a gente ainda ia rir na hora de voltar pra barraca pra dormir com aquela ventania. Acho que foi a noite mais fria em Plaza de Mulas. E a noite com o céu mais estrelado...coisa linda! Lembro do Zaney me chamar na porta da tenda pra ver o céu e eu entender que tava chamando pra gente já voltar pra nossa barraca e eu ainda não queria ir. E aí vi o céu e fiquei embasbacada. Mais uma das cenas que não vai sair da minha cabeça.

Em algum momento depois que voltamos pras nossas barracas pra dormir, começou a nevar, o vento forte varrendo a neve do chão ao mesmo tempo. Com todo o frio que estava fazendo de fora, a condensação com três pessoas dentro da barraca aumentou, e acordei com um monte de gelo sendo jogado por cima de mim. De manhã tinha gelo por cima de todas as minhas coisas e do saco de dormir. E continuava caindo mais. Não tinha muito que fazer... não dava pra tirar o saco de dormir pra secar e não molhar mais, porque estava nevando. Parou de ventar, a neve começou a acumular rapidamente lá fora. De repente, tudo ao redor era branco naquela manhã de natal. Meu primeiro natal com neve! :D :D A paisagem no acampamento base havia mudado completamente.

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Manhã do dia 25.

Fomos checar o prognóstico do tempo. Estando ainda em Mulas, já não existia opção de fazer cume dia 27. Ou era dia 28 ou dia 29. E tínhamos que subir pra Nido no dia seguinte (26). A previsão continuava mostrando o dia 29 como única pequena janela. Dia 30 as condições pioravam de novo. De qualquer forma, dia 30 já estaríamos deixando o parque.

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Dia 26 de dezembro acordamos ainda com neve e vento. Mas a previsão dizia que melhoraria no período da tarde. Então fomos nos preparando pra subir. Aguardamos, e o tempo não melhorava. Por volta de 13 hs decidimos iniciar a subida mesmo assim. Comecei na frente e lentamente fomos seguindo com a neve na cara. Assim que saímos da área do acampamento e começamos a subir, já não dava pra enxergar nada poucos metros à frente, tudo branco. O vento estava constante e a neve fina não parecia que iria parar. Avançamos no máximo 300 metros e parei, virei pra trás e falei que não parecia uma boa ideia continuar subindo naquelas condições. Esperei parada pelas reações. Atrás de mim estava o Philipp, depois o Zaney, e o Andre ainda estava no acampamento, mas nos alcançaria em minutos. Philipp e Zaney concordaram e na mesma hora começamos os três a descer de volta. Andre ficou indignado: “c’mon guys! we can get there, tomorrow is gonna be the same!” Eu também não queria abortar a subida depois de tudo preparado, passar mais uma noite ali e correr o risco do clima estar igual ou pior no dia seguinte. Mas a falta de visibilidade me preocupava. No começo estaríamos juntos, mas depois seria cada um no seu ritmo e eu não queria ficar sozinha montanha acima naquela nevasca sem enxergar nada à frente e sem enxergar o caminho (todo coberto de neve fresca). Mas falei então que toparia o que eles decidissem. Zaney e Philipp disseram que preferiam ficar. E voltamos cabisbaixos pra tenda comunitária. No misto de sentimentos, fiquei também um pouco aliviada de não enfrentar a subida naquela nevasca, confesso... E Andre fechou a discussão com “vocês sabem que amanhã não vai estar melhor, certo? Vai estar assim ou pior, e não teremos escolha senão subir, ok?”. Ele estava um pouco bravo. Todos estavam, claro, mas Andre era o mais preparado de nós e acho que teria chegado em Nido com certa tranquilidade. É compreensível que tenha ficado mais chateado...

Foi uma boa decisão no fim das contas. Quase todos que haviam começado a subida antes de nós desceram em seguida. Um grupo que estava no camp 1 passou maus bocados e uma pessoa sofreu hipotermia no começo da tarde. Nossos colegas russos subiram, com exceção da menina, que desistiu do cume e ficou aguardando eles em Mulas.

Chegando à tenda comunitária, quebrei nossos cinco minutos de silêncio sugerindo um jogo, já que nosso humor não estava dos melhores pra conversar. E jogamos por umas 3 horas, revezando pra buscar água e pra fechar a porta que teimava em abrir com o vento e jogar quilos de neve pra dentro. No fim da tarde, com atraso em relação à previsão, o tempo melhorou. Parou de nevar e começaram a surgir pequenos pedaços de azul em meio ao branco-cinza que cobria o céu. Saímos pra montar de volta a barraca do Andre e fiquei mesmerizada com a paisagem ao redor. Sem o vento, um grande silêncio e paz. E uma beleza única até onde a vista podia alcançar.

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Na madrugada, novamente muito frio e muita condensação. Amanheceu com vento e outra vez a rotina de gelo caindo sobre todas as coisas e deixando meu saco de dormir mais molhado. Já estava úmido por dentro também, porque tive que comprimi-lo pra guardar no dia anterior sem tempo pra secar antes, na nossa tentativa falha de subida. Iniciamos novamente a preparação para a subida: guardar as coisas na mochila, comer, usar o banheiro pela última vez, esquentar água parcialmente congelada e encher as garrafas, colocar os gaiters, separar snacks de fácil acesso para o percurso... Pendurei o saco de dormir ao vento pra ver se secava um pouco, mas em vez disso congelou kkk. Enquanto isso, tentei em vão derreter meu protetor solar que estava duro igual pedra. O vento começou a acalmar. Céu azul. Sem neve. Perfeito. Agradeci mentalmente ao universo, à Pachamama e ao Apu do Aconcágua por poder dizer: “ainda bem que esperamos pra subir hoje :) ”. E é claro que o Andre respondeu: “você sabe que teríamos conseguido ontem sem problemas”. Na verdade eu não confiava nisso não rs.

Reta final

Deixamos então o acampamento base, rumo ao camp 2 (Nido de Cóndores). Era dia 27 de dezembro. Dormiríamos uma noite lá, e no dia 28 subiríamos para o camp 3 (Cólera) para iniciar o ataque ao cume na madrugada de 28 para 29.

Começamos por volta de 12:30 hs. Pode parecer estranho começar os trajetos tarde assim... mas apesar do dia clarear cedo (umas 06:30), o sol só surgia por cima da crista do Gigante depois das 09:00... e batia na nossa barraca umas 10:00. Era difícil sair da barraca antes disso, ou até sair de dentro do saco de dormir. Depois, demorava bastante até hidratar, comer, preparar todas as coisas e partir.

Como sempre, seguimos cada um no seu ritmo, respeitando os efeitos da altitude em cada um. Zaney foi apressado à frente, dizendo que queria chegar logo (parece ter 3 pulmões!! rs) e Andre e Philipp seguiam mais ou menos próximos. Já no meio do caminho entre Mulas e Plaza Canadá, eu havia ficado pra trás. Estava achando mais difícil de respirar nesse dia, e sentindo muito o peso da mochila fazendo forçar mais os pulmões. Cheguei a Canadá com bastante dificuldade. Já era mais da metade do caminho, mas sabia que a segunda parte era mais puxada pela altitude e cansaço. Philipp estava lá esperando por mim há quase meia hora. Andre tinha seguido pouco antes. Descansei por uns 5 minutos e Philipp trocou de mochila comigo por um tempo sem me deixar discutir... A dele estava mais leve porque não estava levando comida, fogareiro e outros itens, que já estavam em Nido. Nesse momento eu já estava completamente ofegante. Respirando muito pela boca por causa do nariz imprestável, estava sentindo como se estivesse com um soluço preso que não me deixava encher os pulmões. Acho que engoli ar ou algo assim. Isso somado à altitude me causou um belo de um sofrimento. O restante do caminho (mais umas 3 hs) foi agonizante. Parar pra descansar não fazia diferença, continuava sem conseguir encher os pulmões. Percebi o Philipp ficando preocupado, e eu repetia que não era nada sério, eu só tinha respirado errado. Mas aos poucos comecei a ficar preocupada também. Aquilo podia ser um início de edema pulmonar? As três coisas que eu me lembrava de ler sobre HAPE eram: 1) tosse seca; 2) falta de ar mesmo em repouso, com sensação de estar se afogando; 3) a sensação piora ao se deitar. Mas independente de qualquer coisa, não adiantava parar. Faltava pouca altitude pra vencer até o camp 2 e a escolha óbvia era seguir. Philipp começou a sentir dor no estômago e ficou mais lento também. Destrocamos as mochilas e seguimos, bem devagar. Não estávamos num bom momento. Pra mim foi o pior dia, porque foi o dia em que senti medo. Medo de estar com um problema sério, medo de não melhorar e ter que abortar a subida no dia seguinte, medo de sentir isso de novo nos próximos dias...

Continua:

https://trilhandomontanhas.com/vanessa/aconcagua-sem-guia-parte-2/

Trace sua rota até lá

Las Heras, Mendoza, Argentina
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  • Gabriel

    Gabriel

    Uauuu muito obrigado pelo post, eu estou em santiago Prestes a tentar chegar ao cume,,, muito obrigado por compartilhar sua experiência !!!

  • Vanessa M Barbosa

    Vanessa M Barbosa

    legal Gabriel! Boa sorte e bons ventos lá em cima! Quando voltar conta como foi!! ;)

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Vanessa M Barbosa
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