Alta montanha. Como se preparar para a primeira vez?

A primeira vez é sempre uma surpresa. Tudo, mas tudo mesmo pode acontecer. E comigo não foi diferente, por mais preparado que você pense que está, algumas surpresas serão inevitáveis. O importante é deixar o coração bater e viver intensamente o momento, porque a primeira vez a gente nunca esquece (risos).

Você lembra como foi a sua primeira vez? Eu sim. E agora vou contar em detalhes! Espero conseguir passar aos leitores deste artigo um pouquinho do medo e prazer que tive neste dia tão especial da minha vida!

Em agosto de 2014 foi a minha primeira vez. E ela aconteceu a 5.485 metros de altitude no Peru, na Cordilheira Vilcanota, cume do Campa, no chamado trekking de Ausangate. Foi a minha primeira alta montanha. E, para quem não sabe, o acampamento base do Everest na base Sul (Nepal) tem 5.364 metros e na base Norte (Tibete) tem 5.150 metros.

O Trekking de Ausangate foi fruto de um convite inesperado de uma querida amiga, Beatriz Pianalto de Azevedo, que estava atrás de uma “doida” que lhe fizesse companhia na expedição. Na verdade, praticamente não me preocupei com nada, ela organizou tudo e eu somente me encaixei em um roteiro já estabelecido. Mas, diferentemente de uma viagem para Paris, nosso roteiro incluía, três dias de aclimação e sete dias dormindo em barraca, sem banho, com frio e muita neve. Para garantir o sucesso da empreitada contratamos dois guias, um para cada uma, assim se alguma de nós desistisse a outra poderia continuar.

Acredito que por gostar de esportes outdoor o perfil psicológico para aventura eu já tinha, mas precisava saber o que me esperava e, para isso, a minha primeira recomendação para alguém que planeja fazer uma alta montanha não tem nada a ver com alimentação, treino e equipamentos. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de condicionamento físico faz qualquer coisa! Repito: qualquer coisa! No entanto, uma pessoa sem perfil psicológico não faz absolutamente nada! E eu já vou explicar o porquê.

A primeira coisa que um iniciante precisa fazer é LER E FALAR! Ler livros, artigos e revistas de alta montanha e falar, falar com todos conhecidos (ou desconhecidos) que já fizeram algo do gênero, assim vai conhecer um pouco do que vai enfrentar e poderá decidir com clareza se é ou não a “sua praia” (ou melhor, a sua montanha).

Aprendi muito nos livros e artigos que li. Desde qual a roupa usar para dormir no frio, o que levar na mochila de ataque e até quais os remédios que você deve carregar no seu kit “nada básico” de primeiros socorros. Mas hoje vou falar apenas do que considero o mais importante, o preliminar para qualquer um que pretende encarar uma alta-montanha: é o preparo psicológico.

Já na primeira nevasca que peguei me sentia personagem dos livros que eu tinha lido. Quase tudo que eu via ou sentia, parecia que já tinha visto ou sentido antes, nada era tão novidade assim e de certa forma me tranquilizava pensar que, como nos livros, tudo iria dar certo. Digo isso porque dormir ouvindo o som de avalanches em uma barraca branquinha de neve poderia ser apavorante se eu não soubesse que isso era “normal”.

Geralmente caminhávamos entre 7 e 8 horas por dia, montanha acima e abaixo, sempre que subimos descemos para dormir numa altitude menor (faz parte da aclimação não dormir na altitude máxima alcançada). Caminhávamos uma média de 18 a 22 km por dia.

A surpresa veio mesmo no dia do ataque ao cume. Sabe aquele friozinho na barriga da primeira vez? No meu caso foram cólicas e mais cólicas (risos)!

No dia 07/08/2014 partimos as 4 horas da manhã para atacar o cume da cordilheira Vilcanota. Como seria o dia mais desgastante do trekking decidi fazer um café da manhã mais reforçado e comi um ovo!

Após duas horas de caminhada em direção ao cume da Cordilheira eu já sentia dores e cólicas. Percebi que o maldito ovo caiu como uma bomba no meu estomago! Foi quando lembrei que tinha lido sobre a dificuldade de digestão de alguns alimentos na altitude, entre eles, o ovo! Mas era tarde, eu já tinha comido! Após 4.900 metros cada passo montanha acima já é muito difícil, você faz pausa para respirar o tempo todo, fica ofegante, toma água (aliás, muita água, tem que tomar 3 litros ao dia, no mínimo). Mas, acredite!! Com o ovo tudo fica muito pior! Sabe aquela história: “só dói quando eu respiro”, exatamente isso! Quando você respira dói e como dói?!!! Eu tinha contrações de dor. Eu subia a Cordilheira e maldito ovo subia e descia dentro de mim (risos).

Assim eu fui subindo em direção ao cume, respirando e gemendo de dor. Quando faltavam “apenas” 100 metros e depois de escalar dois glaciares (a primeira escalada da minha vida também) eu pensei que a brincadeira tinha acabado para mim. Sentei aos soluços de choro e olhando aquela imensidão branca comecei a questionar o que eu estava fazendo ali. “Porque estou fazendo isso comigo? Pra quê? Eu preciso provar alguma coisa pra alguém ou pra mim mesma?”. Mesmo tendo um perfil inquestionável para aventura, naquele momento, questionei minhas certezas. Foi quando o querido guia Peruano me disse: “você não vai desistir agora, caminha três passos e descansa 5 minutos, você vai chegar lá!! É só você querer”. E foi isso que eu fiz, três passos de gemedeira por vez e cheguei até os 5.485 metros de altitude. Assim foi minha primeira vez! Meu primeiro “Everest”!

E a dor? Foi substituída pelo prazer! Naquele momento não existia mais dor alguma, só uma imensa satisfação de vitória e superação. Chorei e chorei muito! E as perguntas que eu tinha feito para mim mesma? Foram todas respondidas internamente em um momento único de reflexão e autoconhecimento.

No dia seguinte eu tive uma infecção intestinal que poderia ter acabado com todos os outros 4 dias de trekking que ainda teríamos, tudo culpa do maldito ovo! Mas, o prejuízo foi de algumas horas, pois graças as minhas leituras e consultas aos mais experientes, eu estava com os remédios certos no meu Kit “nada básico” de primeiros socorros.

Por fim, além de você se preparar psicologicamente através de leituras e contato com pessoas mais experientes que você, lembre-se: você sempre tem mais forças que imagina e, na altitude, não coma ovo!

Essa página foi últil para você?

(1 avaliação)

Compartilhe